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A América Racista: Intolerância, Preconceito e Ódio nos Subterrâneos dos Estados Unidos

Barack Obama consolidou sua vitória nas eleições presidenciais dos Estados Unidos construindo um poderoso leque de alianças com diversos setores da sociedade estadunidense, incluindo neste nicho os setores financeiros mais poderosos e apoios de grupos multirraciais. De um quase desconhecido senador democrata do estado de Illinois em 2004 para o homem no cargo mais poderoso do planeta, o "fenômeno" Obama não apenas angariou amplo apoio em torno do seu nome, mas também poderá suscitar os intranqüilos fantasmas xenófobos dos escombros de uma sociedade que busca impor fora do seu território um modelo imperialista com a cosmopolita bandeira da democracia (claro, nos moldes da política estabelecida por Washington).

O fato de ser o primeiro presidente negro da história estadunidense não apenas se tornou motivo de grande esperança e entusiamo para comunidade afrodescendente daquele país, mas sobretudo passou a vingar um sentimento de insegurança e preocupação para o serviço secreto dos Estados Unidos. Após o rescaldo da euforia eleitoral proveniente da Onda Obama, certamente um dos grandes desafios do futuro presidente estadunidense é garantir o cumprimento do seu mandato ileso, se esquivando fisicamente do ódio racial de grupos fascistas que ainda lutam pela "supremacia branca" dentro do interior dos Estados Unidos. Certamente, se manter vivo nos próximos anos não será uma tarefa muito fácil para o presidente Obama e seus seguranças. Desta vez, o "grande mal" não serão os propalados "terroristas" de Osama Bin Laden ou grupos extremistas muçulmanos espalhados pelo Oriente Médio e Ásia que salvaram do ostracismo a administração do primeiro mandato de George W. Bush e mobilizou o império para sua babilônica "cruzada contra o terror". Ao ganhar a inédita corrida à Casa Branca, Obama correrá o risco de dormir com o inimigo e não acordar mais de seus sonhos.

Segundo matéria do diário carioca, Jornal do Brasil, a ONG estadunidense Southern Poverty Law Center (SPLCenter), com sede no estado do Alabama, mapeou 762 grupos racistas nos Estados Unidos, ligados a seis organizações diferentes. Desse total, 161 são agrupados na categoria ''outros'', que não têm uma linha específica de ação. Destaque para as três principais organizações que pregam a xenofobia explícita dentro dos Estados Unidos: a histórica Ku Klux Klan, os neo-nazistas que são os resquícios da ideologia do nazismo alemão e um nicho de afrodescendente de intolerância reunidos nos Separatistas Negros.

A Ku Klux Klan, a mais antiga das organizações racistas que apregoam o catecismo da "supermacia branca" dentro do território estadunidense, tem 162 grupos associados e surgiu no fim da guerra Civil, em 1865, quando perseguia os negros no Sul do país. Ao longo dos anos, estendeu seu ódio aos judeus, homossexuais e, mais recentemente, aos católicos. Há oito décadas, os números da Ku Klux Klan impressionavam: cerca de 5 milhões de integrantes. A matéria do Jornal do Brasil ainda ressalta que o SPLCenter admite que o número atual é estimado em 7 mil integrantes e poderá ser maior, uma vez que hoje em dia muitos dos filiados preferem manter sua identidade em segredo.

A segunda maior organização xenófaba são os neo-nazistas, com inspiração nas pregações de Adolf Hitler que comandou a política do nacional-socialismo (nazismo) na Alemanha (1933-1945). A facção estadunidense neo-nazista concentra seu ódio nos judeus, mas também perseguem gays e cristãos. Têm 158 grupos cadastrados. Também atacam os judeus 28 grupos ligados à Identidade Cristã, de brancos. Pouco antes da vitoriosa eleição de Obama, a inteligência secreta dos Estados Unidos prendeu dois jovens neo-nazistas em solo estadunidense acusados de armarem um suposto plano para assassinar o então candidato democrata.

Os Separatistas Negros representam os valores xenófobos da "supremacia negra" estadunidense e têm 108 grupos cadastrados e são a terceira maior organização racista do país. Tal grupo se opõe à integração das diferentes raças chegando até mesmo a pregar a criação de uma nação negra. E, embora formada por integrantes de uma das minorias atacadas pelos segregacionistas brancos, é considerada pelo SPLCenter tão racista quanto as outras organizações. O paradoxo pode ser preocupante se o ódio extrapolado de um grupo que exalta uma "supremacia negra" arquitetar contra a vida de um representante afrodescendente, uma vez que é possível que seus membros possam se sentirem "traídos" ao longo da administração de um presidente negro.

Segundo a Agência AFP, o site do Ku Klux Klan, advertiu nesta semana para as conseqüências de uma administração Obama. "Muitos brancos deste país vão despertar", com a eleição de Obama, afirmou um intitulado Thomas Robb. Ainda seguindo a matéria da Agência AFP, em carta ao serviço secreto estadunidense, Bernnie Thompson, um membro do Congresso negro de Mississippi, escreveu "Como afro-americano que foi testemunha de alguns dos dias mais vergonhosos da história deste país durante a luta do movimento pelos direitos cívicos, sei que o ódio de alguns dos nossos concidadãos pode levar a horríveis atos de violência".

Não apenas grupos racistas que se declaram abertamente ou franco-atiradores de típicos assassinatos em massa dentro das escolas estadunidenses se constituem num real perigo para o presidente Obama. É importante destacar que grandes interesses de grupos políticos e econômicos são os maiores assassinos de líderes ao longo da história da humanidade. Para o mesquinhos interesses das "corporações", as grandes empresas do capitalismo mundial, nada e absolutamente nada parece está acima dos seus lucros bilionários. Como bem ressaltou matéria da Agência AFP: "A cor do novo presidente é apenas uma das fontes de preocupação suplementares, em um país que tem 200 milhões de armas de fogo responsáveis por 30.000 mortes por ano, onde quatro presidentes foram assassinados no exercício de suas funções e onde vários outros foram alvos de tentativas de assassinato."

Os assassinatos de ativistas e líderes negros é tão enraizados na cultura de grupos xenófobos estadunidenses que as preocupações com a segurança de Obama serão cada vez maiores. Naturalmente, qualquer um no cargo de chefe-mor da Casa Branca que tem a envergadura de poder acionar o maior arsenal bélico do mundo e destruir a Terra por completo, independentemente de qualquer situação fora da "normalidade" já causaria grande celeuma na equipe de segurança pessoal. Adicionando a cor da pele, a tarefa para o serviço secreto de proteção ao presidente irá se multiplicar. Martin Luther King e Malcom X, dois dos principais nomes do ativismo negro estadunidense assassinados na década de 1960 pelo ódio racial são trágicos exemplos que a barbárie é tão resistente quanto o desejo de liberdade e emancipação humana.

 

Para ler mais

AGÊNCIA AFP. Um dos próximos desafios de Obama será sua própria segurança. 6 Nov 2008. Disponível em:   http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2008/11/06/ult34u213872.jhtm. Acesso em 6 Nov 2008.




Escrito por Wellington Fontes Menezes às 12h19
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A Eleição do 'Crash': Da Onda Obama à Realidade do Fim do Estado de Bem-Estar Social

A gerência do maior complexo militar do planeta troca nominalmente de mãos em um momento de inflexão histórica. Madrugada de quarta-feira, 05 de novembro de 2008, assisto pela Record News, ao vivo e via satélite, o primeiro discurso do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Hussein Obama. Como nas típicas montagens cenográficas dignas das superproduções midiáticas de Hollywood, uma multidão comemora a vitória do candidato negro (mulato para os padrões brasileiros) à Casa Branca, no Grant Park, em Chicago, no Estado de Illinois, o qual Obama é o atual senador por este estado.


No histórico discurso de Chicago, Obama agradeceu seus correligionários, pediu a união do povo estadunidense e ressaltou o trabalho de Joe Biden, o eleito vice-presidente de sua chapa. Ovacionado por uma legião emocionada de adminiradores, após o discurso, sobe ao palco as mulheres de Obama e Biden e posteriormente seus familiares, uma espécie da grande confraternização da construção simbólica e suprarracial da "família da América", um dos pilares do conservadorismo estadunidense.


Barack Obama é um meteoro político e midiático. De um desconhecido senador negro (ou politicamente correto falando, afro-americano!) de Illinois em 2004 à "obamania" presidencial de 2008, Obama venceu uma dura batalha contra a pré-candidatura democrata da poderosa Hillary Clinton, considerada a favorita por muitos analistas, até ganhar finalmente a adesão se seu partido para ser o candidato oficial do Partido Democrata. A disputa com um cansado candidato do Partido Republicano, o veterano de guerra, John Mccain, e sua inusitada e atrapalhada candidata a vice-presidente, a governadora do longíquo Alaska, Sarah Palin, foi mais um período para confirmar junto ao eleitorado a supremacia do carisma midiático de Obama e a ressonância dos seus discursos sobre suas promessas de "mudanças" a serem implementadas em seu país. Vale lembrar da desastrosa campanha de Mccain e as gafes hilárias de uma pré-fabricada Palin (uma gafe inesquecível é a sua entrevista televisiva à uma jornalista a qual a vice de Mccain respondeu que não sabia quais jornais ela lia diariamente!). Soma-se ainda ao esforço de desvincular Mccain do fardo de ser o "candidato de Bush", considerado pelos próprios estadunidense com o seu pior presidente de todos os tempos (superando até mesmo o desastre da administração de Richard Nixon!).


Obama não economizou recursos e não fez uma campanha nada modesta para um candidato que concorria contra um republicano "desesperado" no páreo. Com uma campanha considerada a mais rica da história das eleições estadunidense, onde mesclou contribuições massiva de agentes econômicos tradicionais e uma inteligente arrecadação via meios eletrônicos voltados para o "eleitor comum" com contribuições modestas a partir de 5 dólares por simpatizante (uma espécie da global "Criança Esperança" brasileiro para engordar o caixa eleitoral de Obama).


Todavia, os dois maiores cabos eleitorais de Obama foram o desgaste da herança desastrosa do imperialismo fascista do Partido Republicano, na figura do patético George W. Bush, e a histórica crise financeira que se estourou com a mega-bolha especulativa de Wall Street em plena campanha eleitoral e está não apenas levando os Estados Unidos à recessão, como parte significativa do mundo à reboque. A eleição do "crash" transformou a figura de Obama como o novo messias do stabilishment estadunidense e alavancado como um predestinado "líder mundial". A crise financeira estadunidense de 2008, iniciada pela bola especulativa dos mercados imobiliários, passou da esfera da cafetinagem dos lucros fáceis da economia via bolsas de valores à economia real. O desespero tomou conta dos mercados mundiais, devastando empresas e desemprego em diversos países do mundo do "capitalismo maduro" e que derreteu trilhões de dólares em poucos dias. A hecatombe econômica que deixou os Estados Unidos à beira do colapso em 2008, em magnitude, somente é comparável apenas ao "crash" da bolsa estadunidense de 1929 e, na ocasião, representou um marco na história mundial e implementação de políticas de intervencionismo estatal no capitalismo sem freio do início do século XX. O fim da irresponsável retórica neoliberal de deixar a promíscua "mão invisível" atuar no mercado foi deixada de lado e a cartilha keynesiana foi tirada do fundo do armário e buscou-se uma retomada da estatização de grande parte do setor financeiro através da forte intervenção do Estado. A "socialização" das perdas da ciranda especulativa através do dinheiro do contribuinte criou-se muita celeuma dentro dos Estados Unidos a ponto do governo Bush ter muita dificuldade de emplacar seus generosos pacotes de ajuda financeira aos especuladores falidos.


Neste rastro de destroçamento econômico estadunidense, nem mesmo o enraizado preconceito dos estadunidenses impediram de eleger o primeiro negro à sucessão de um país com profundas chagas de conflito aberto racial. Por sua vez, visando não perder eleitorado e apoio de demais grupos éticos, Obama procurou minimizar o fato de ser um "candidato negro" e se postulou como um "candidato de todos da América". Para Simon Jenkis, do jornal inglês "The Guardian", a vitória de Obama simboliza o fim da supremacia "wasp" (a elite americana branca protestante) nos Estados Unidos, onde a cor da pele ainda representa forte peso eleitoral. O carisma midiático de Obama cruzaram o Atlântico e o Pacífico, e a "obamania" varou o mundo cada vez mais anti-estadunidense. "O motivo de sua candidatura ter incomodado muitos americanos é o motivo pelo qual o mundo ficou eletrizado por ela: Obama é meta-americano", salientou Jenkis em seu artigo para o periódico inglês ressaltando a simbologia de Obama.


A cruzada fascista de Bush e nome da "guerra contra o terror", a invasão do Iraque e o patinação das tropas estadunidense no Afeganistão perderam fôlego dentro da campanha presidencial de Obama e Mccain em virtude dos estadunidense estarem muito mais preocupados com os destroços da crise econômica interna e não perderem seus próprios empregos. É importante salientar o fim do estado de bem-estar social implantado pelo New Deal patrocinado pela administração de Franklin D. Roosevelt, a partir do início dos anos 1930 e vem sendo paulatinamente erodido nos Estados Unidos por anos de aplicação de um neoliberalismo explícito, diminuição da participação do Estado dentro da esfera social e amplição da concentração de renda dentre as camadas mais ricas da população (24% das riquezas estadunidense estão na mão de apenas 1% da população). Sem uma política pública de saúde, o custoso sistema de saúde privado é uma das maiores queixas dentre as classes médias e pobres estadunidenses. Este esfacelamento do estado de bem-estar estadunidense são práticas desenroladas desde as políticas republicanas da Era conservadora representada pela gestão de Ronald Reagan, início do anos 1980, e se prolongando até agora, os anos neoconservadores de Bush filho.


Obama é o arquétipo do "sonho americano" no coração da América, ou seja, a retórica da mobilidade de classes dentro das economias desenvolvidas. Obama promete o resgate do padrão de vida das famílias estadunidense via diminuição dos impostos do contribuinte. Será? Como mote de campanha, é afrodisíaca uma redução de até 90% da carga de impostos diretos das famílias estadunidenses! Todavia, a realidade será bem outra. Os Estados Unidos não vão abrir mão de serem a "polícia do mundo" e o gerenciamento do império não é nada barato. Para cada 1 dólar gasto em impostos, 40 centavos vão para os cofres militares. Trocando em miúdos, cerca de 40% do orçamento do país é para sustentar o maior complexo militar do planeta e posto de unipotência imperial bélico do planeta. No total dos orçamentos militares de todos os países do mundo, 45% são derivados dos gastos estadunidenses. Obama já declarou que não vai mexer no orçamento militar nos primeiros anos de seu governo. Portanto, é será difícil acreditar em redução de impostos, que impactará diretamente na arrecadação a ponto de comprometer o orçamento militar e certamente decepcionará muita gente que acredita que Obama diminuirá o fetiche imperialista estadunidense pelo mundo. Não há indícios ainda que Obama irá abrir mão do keynesianismo militar para buscar alavancar parte da economia interna derretida pela farra dos especuladores de Wall Street.


"Sim, nós podemos!", retórica repetida à exaustão na campanha de Obama. Cabe ao candidato passar de uma messiânica figura política na difícil superação e unificação do voto "negro" e "branco". A simbologia do Obama, um afro-americano bem-educado e sucedido ("quase um verdadeiro branco estadunidense!") poderá inicialmente trazer muita euforia e sensação de "mudança" nas posições estadunidense pelo mundo. A realidade o pragmatismo poderá reinar na futura administração Obama. É importante ainda salientar que não há caminhos para ilusões: Obama não governará sozinho ou apenas com alguns seletos assessores. Na intricada rigidez da administração do império, Obama poderá ser mais um refém das sólidas e conservadores estruturas de dominação dentro da arquitetura de poder nos Estados Unidos.


O que chama mais atenção é o momento histórico de resgate da identidade estadunidense Pós-Wall Street. No emblemático discurso de vitória em Chicago, na noite de ontem, dia 04 de novembro (horário local), Obama representou irradiante esta figura arquetípica de "esperança do sonho americano" para milhares de estadunidense. Somente num futuro próximo dirá se a onda da obamania virará (ou não) uma nostálgica maré. Para o restante do planeta que deverá estar com o olhar atento no retrovisor da história, o pragmatismo ainda é a melhor caminho para as relações políticas com Washington, sem prematuramente mergulhar de cabeça em fortuitas promessas de ondas multirraciais e pan-americanismos eleitorais com largo sorriso.




Escrito por Wellington Fontes Menezes às 10h14
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