Uma tragédia sentida

Para quem acompanha alguns dos meus escritos, hoje destoarei dos textos usuais disponíveis nos blogues. O motivo é válido e merece ser registrado. Uma pausa para a reflexão sobre a morte a partir de uma tragédia sentida com uma força e intensidade entristecedora.
Na escola pública onde leciono (ou pelo menos tento lecionar diante do caos...) há dois professores efetivos de Física, o escrevinhador destas linhas e um professor que há mais de 25 anos permanece na mesma unidade escolar e morador do bairro. Temos um bom contato profissional e com grande tranqüilidade, e como é natural com as pessoas que tem certa identidade própria, permanecendo sem atrito nossas diferenças particulares e respeito mútuo. Um bom sujeito, bastante voluntarioso na escola e do tipo que a sociedade busca pregar o molde sintético de “bom marido, bom pai” etcetera e tal. O longo de mais de três anos da minha efetivação no cargo e lotação na escola, em contato com Ele, a conversa girava em alguns formalismos das aulas e expectativa dele com a aposentadoria, alguns planos para o seu futuro familiar e, como na maioria dos pais, procurando construir ou projetar seus sonhos não concretizados no semblante do seu filho.
A vida muitas vezes beira entre a ironia e a tragédia. No início da tarde desta quinta-feira, mais um dia tedioso na escola e sabendo as novas besteiras demagógicas da Secretaria de Educação, o ânimo não tinha como melhorar. Já quase terminando meu horário de trabalho e acabei por encontrá-lo no corredor na rota da sala da diretora. Conversamos rapidamente alguma coisa vaga. E assim me despedi dele e foi à última pessoa com quem conversei na escola neste dia. Passado a tarde e adentrando a noite, recebi um telefonema da secretária da escola dizendo que as aulas estariam suspensas devido a uma notícia inusitadamente trágica. A esposa e o filho deste amigo professor tinham sido atropelados por um caminhão desgovernado! A esposa faleceu no local do acidente e o filho tinha sido levado em estado grave para um hospital da região. Até o momento, não tenho notícias do estado de saúde do garoto.
Todo o sentimento de perplexidade é ainda pouco quando nos deparamos com tragédias tão intimamente ligadas ao nosso cotidiano. Quando se conhece os atores e o cenário perece muito mais vivo e dramaticamente mais acinzentado. Naturalmente, nenhuma tragédia pode ser mensurada de forma sistemática e com níveis de intensidade. Toda tragédia é uma tragédia e suas conseqüências são igualmente trágicas. Porém, a intensidade da latente dor se torna mais pulsante quando o terreno é conhecido. E isto realmente tem um peso considerável!
Qual a dimensão da tragédia para um ser humano quando subitamente seus entes queridos são visceralmente atingidos de forma tão estúpida e brutal? Não tenho palavras e não tenho a pretensão de dimensionar o entorpecer de uma catástrofe unipessoal. Uma imensa dor não caberia nem mesmo ser transcritos nas páginas volumosas de uma Bíblia. Em segundos, todos os sonhos, projetos e trabalho de uma vida são pulverizados. Qual o sentido da vida? – permanece em aberto uma das questões mais perturbadoras de nossa existência. Talvez nunca tenhamos uma resposta definitiva. Porém, é possível que dentro de cada um de nós encontre sua resposta pessoal e que congrace seus desejos.
Criamos e desunimos, cortamos e colamos, sonhamos e desfazemos, pintamos e borramos, construímos e diluímos, sorrimos e pranteamos. Tantas agruras na vida angustiada e tantos caminhos inverossímeis, como é o caso de morar numa cidade como São Paulo. Um cotidiano aflitivo, agonístico e nauseante onde parece muito mais uma guerra de todos contra todos do que uma comunidade de seres humanos. E de repente, todos os egoísmos, narcisismos, auto-suficiências e inimizades são tão pífios e paupérrimos diante do inusitado sentido da morte. Quanta vida deixou-se de vivida para adentrar num momento de trevas e prantos? Quem ganha com a guerra se a Paz é o maior dos bens pessoais e coletivos? É preciso acordar e viver!
Talvez uma das características pertinentes do inconsciente coletivo ocidental é a nossa visão diante da inevitabilidade morte. É provável que algumas religiões orientais, destacando aqui o budismo com sua visão holística do mundo, tenham um melhor entendimento da “arte de morrer” e cujo sofrimento seja entendido de forma transitória e atenuado. Porém, para nós ocidentais, o forte apego ao materialismo atávico nos fragiliza com mais intensidade e reverbera o desespero diante da morte. Aliás, a angústia maior não está no fato de morte em si, mas quando deixarmos de viver e instalar a saudade das pessoas e desejos queridos. Paradoxalmente, a morte nunca é o fim, mas o meio o qual se perpetua uma imagem na retina das pessoas afetivas.
Diante do espelho, não apenas vemos essa imagem de nós mesmos, mas o que nos constituímos ao longo dos anos: nossos atos, ações, alegrias e tristezas. Nosso passado, sonhos, conquistas, família, desejos e amores fazem parte simbolicamente da imagem projetada no espelho. Não somos uma ilha, por mais que a auto-suficiência possa desejar o ostracismo, deixamos de existir quando o que está em nossa volta também não existe. A imagem fixa, a linguagem castra e a vida segue pulsando de uma maneira ou de outra... Para a psicanálise freudiana, a pulsão é a energia que move nossas ações e coexistimos com a dualidade entre “pulsão de vida” e “pulsão de morte”. Qualquer tipo de perda negativa fomenta a propensão à cultivarmos a “pulsão de morte”. Quando perdemos pessoas muito queridas, perdemos (nem que seja momentâneo) nosso horizonte de vida e trilha a ser peregrinada. A “pulsão de vida” é essencial para continuarmos a respirar em ar rarefeito.
A morte é o vazio. Uma tragédia é o calabouço do vazio. A fração entre viver e não viver é tão infinitesimal como um piscar de olhos. Matamos uns aos outros ou destruímos as pessoas com um sadismo irretocável. Grana, ganância, estupidez ou insanidade: no limite da mediocridade humana, a vida vale muito menos que a morte. A vida nos grandes centros urbanos vale cada vez menos. Entre culpados e inocentes, ninguém escapa do mesmo destino final. Num mundo cada vez mais materialista, viver, matar ou morrer são apenas conjunturas desconectadas e insaciadas. Porém, diante de uma tragédia como a relatada aqui, a sensação é de total desertificação dos sentidos.
A angústia dilacera todas nossas precárias certezas. Aliás, a precariedade e a fragilidade são constituintes básicos dos significados e dos significantes humanos. Pela minha formação inicial acadêmica, não sou adepto a nenhuma religião, mas acredito no potencial religioso perante uma comunidade ou mesmo para um indivíduo. Um dos objetivos primazes da religiosidade é atenuar as agruras dos tempos apaziguando a alma. Podemos acreditar ou não em alguma religião, seja qual for sua crença, todavia diante da natureza inexorável da ceifadoras de vidas, a vida ressurge como o maior de todos os bens sobre a natureza. Cada vida é importante e cada ser humano deverá ser respeitado.
Não encontro palavras que possam consolar o amigo professor. Não há mágica que possa ser tão transformadora e transporta-lo da imediata crueldade da vida mundana para um idílico Paraíso sem dor. Nestas horas tão inexatas, não questionamos a existência de uma natureza suprema, um Deus maior, mas simplesmente procuramos ansiosamente acreditar no cessar desta dor que impregna todas as vértebras e, mesmo na distância possa nos aproximar de quem guarda no cerne da alma valores relativos ao amor, angústia e saudade. Seja neste plano terreno ou em algum mítico Paraíso.
Que o caminho da desolação seja pavimentado com a tutela necessária de conforto e Paz levados até a profundidade da alma. Deixo então registrado aqui meu profundo pesar, lamento e solidariedade.