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As vozes do ventríloquo: A pré-fabricação das tensões sul-americanas

 

Se escuchan con fuerza en el sur de nuestro continente las trompetas de la guerra, como consecuencia de los planes genocidas del imperio yanqui. ¡Nada es nuevo! ¡Estaba previsto!

(Fidel Castro Ruz, Granma, Marzo 3 de 2008)

 

No jornal socialista cubano, Granma, as palavras de Fidel Castro soam como prelúdio de tempos sombrios e genocidas com cartas marcadas. A postura de enfrentamento da suposta "guerra ao narcotráfico" na América do Sul criou ao longo dos anos um desarranjo de poderes na minguada estabilidade entre os países que compõem o bloco. O atávico enlace da Colômbia com as políticas belicistas de Washington conduziu a uma política de enfrentamento com os países fronteiriços, Venezuela e Equador. A arquitetura da política sul-americana nunca foi tão simples como prega caoticamente a mídia neoliberal.

 

Existe uma clara disposição das políticas estadunidenses de combater qualquer país que possa fazer oposição ao governo e os interesses econômicos dos Estados Unidos, ou seja, o imperialismo não é apenas uma retórica do saudosismo comunista. Hugo Chavéz com sua diplomacia da bravata é o grande regente da disposição anti-estadunidense na região vêm sendo um canalizador de tensões. Os dólares jorrando fácil da venda de petróleo arregimentam a investida armamentista da Venezuela e amplia a influência de Chavéz na região. Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador são fontes de influência direta da chamada "política bolivariana" de Chavéz. Raramente se viu uma Venezuela tão forte economicamente quanto militarmente e, diga-se de passagem, tão independente politicamente, sem a clássica subserviência. O mérito é das pregações bolivarianas de Chavéz, mas a retórica belicista é boa para a estabilidade regional? A resposta é um lacônico “não”.

 

A bem da verdade, é importante ressaltar o que de fato como se constituíram as recentes políticas empregadas na América do Sul. Após um período de atrelamento cordial das políticas neoliberais provenientes do Consenso de Washington houve uma nova configuração nos arranjos políticos locais no final limiar do século XXI. A chamada "guinada à esquerda", com o neopetismo de Lula, o neoperonismo de Kirchner na Argentina, o bolivarianismo de Chavéz e a subida ao poder dos satélites venezuelanos, o boliviano Morales e o equatoriano Correa, apesar das inúmeras bobagens da mídia neoliberal, emergiram no cenário sulamericano como respostas às políticas conservadoras e neoliberais das velhas elites locais. Os casos de Brasil e Argentina são mais emblemáticos e merecem uma atenção maior para seus desdobramentos políticos. Tal como os últimos presidentes estadunidenses, é importante ressaltar que Hugo Chavéz não foi um produto da mídia, mas das necessidades e inquietações políticas do momento político do seu país. Em poucos anos, a Venezuela se tornou um paradigma no contexto das políticas da América do Sul. Todavia não é uma nova Cuba e nem Chavéz o esboço de um novo Fidel. A OPEP com sua política vigorosa de ampliação dos preços dos barris de petróleo é o maior fiel depositário do enriquecimento venezuelano e do messianismo de Chávez.

 

A recente invasão de tropas colombianas em território equatoriano é uma prova robusta que os Estados Unidos fazem uma contabilidade muito oportuna. Se por um lado, Álvaro Uribe almeja conquistar votos nas próximas eleições colombianas e influência política com sua política mimetizada de "tolerância zero” ao estilo do midiático Rudolf Guliani, ex-prefeito de Nova Iorque. Por outro lado, é uma nova ofensiva do moribundo final da patética gestão de George W. Bush e que poderá angariar alguns votos para seu candidato republicano nas eleições estadunidense do final do ano (alfinetando o maior oponente na região, Chavéz). A contabilidade é primitiva e irresponsável, mas na sobrevida eleitoreira parece ser tudo possível.

 

A diplomacia suicida estadunidense conseguiu transformar o pós-Guerra Fria num mundo cada vez mais caótico, frágil e fragmentado. A eclosão de diversos conflitos nos quatro cantos do planeta, é mais um importante golpe para os arautos dos "milagres" da globalização. A região dos Bálcãs, Oriente Médio e fronteiras da Rússia, para citar exemplos mais difundidos na mídia, nunca tiveram tão longe de resolverem seus conflitos. Ainda a guerra é o melhor mecanismo de ensurdecer pessoas e lubrificar com ódio e sangue as engrenagens do capital. A estupidez parece sempre ser uma boa conselheira em críticos momentos de interesses políticos e econômicos.

 

O mais importante para os governos dos países da América do Sul é a estabilidade da região. Tal premissa nunca poderá abrir mão dela: a Paz é inequívoca. Nenhum dos países da área ganharia com a fragmentação política, exceto corpos inocentes ensangüentados e os interesses mesquinhos de algumas elites locais subserviente dos desígnios imperialistas de Washington. Nem as FARCs e nem os paramilitares na instável Colômbia poderão ser usados como pivô desta crise pré-fabricada. O narcotráfico, sem dúvida, é um dos graves problemas que afeta a construção de uma estabilidade política, porém atrelar este fator exclusivo por todas as intempéries regionais é fazer política com interesses e olhares estadunidenses. A fragilidade política permite uma rede de corrupção desenfreada, enfraquecimento da justiça e desmantelamento de qualquer possibilidade de um Estado de Bem-Estar Social. O combate à pobreza endêmica das sociedades sul-americanas é o maior de todos os grandes desafios. Somente com a união desses países será possível criar uma verdadeira comunidade sul-americana de nações independentes politicamente. Entrar na provocação de Uribe que está sendo usado como verdadeiro boneco de ventríloquo dos falcões de Washington é desconstruir todo o potencial de possibilidades reais para erguer países da grande pobreza histórica e sucumbir a uma guerra inútil e estúpida que corroerá as economias locais.

 

Se Chavéz e Lula querem ser líderes sul-americanos, caberá aos dois países sob a sua tutela unir esforços diplomáticos para conter a onda belicista colombiana a qualquer custo e não aceitarem o fácil discurso do "combate ao narcotráfico" dando subsídios para que Washington intervenha militarmente na região. Aliás, se os Estados Unidos quisesse realmente conter o narcotráfico, tal como maior mercado consumidor mundial de drogas, trabalharia com mais vigor ao combate aos traficantes de suas próprias fronteiras e cuidaria melhor dos seus dependentes químicos em seu próprio território.  O prelúdio da guerra pré-fabricada entre Colômbia e Equador é mais um catequético cenário da fragilidade, subserviência e instabilidade política dos governantes sul-americanos. Certamente uma dose extra de imbelicilidade condimenta este caldeirão explosivo de jogos de interesses tão medíocres, pequenos e suicidas.

 

Nenhuma guerra é boa e todo derramamento de sangue é inútil. O fortalecimento de uma América do Sul livre e autônoma politicamente é o desapego às práticas belicista do imperialismo estadunidense e a construção de políticas multilaterais que possam integrar as economias, políticas e culturas entre os países da área. Sem uma intensa combatividade incansável contra a pobreza local atrelada ao desenvolvimento econômico regional, as fragilidades políticas e interesses das elites locais dos países sul-americanos ficaram eternamente fadados a serem bonecos de ventríloquo do imperialismo.  Como diz Fidel em suas reflexões, nada é novo nesta história e tudo é muito previsível.


Referência:

Fidel Castro, “Los cristianos sin biblias”. Disponível em:  http://www.granma.cu/espanol/2008/marzo/lun3/reflexiones.html . Acesso em 04 março 2008.



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 06h31
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Charge do jornal carioca Correio do Brasil, 03/03/2008


Síntese da Pedagogia da opressão

Nem sempre o presidente Lula é feliz em seus comentários. Suas pérolas já se tornaram imortais. Porém, nada reflete tão bem a mentalidade fascista de setores da sociedade quanto o que impera o uso da força (ou seja, o braço da porrada policial) como meio "democrático" de garantir a "paz e a tranquilidade" da burguesia e seus apêndices sociais... Ah, claro, como de praxe no discurso dos donos do poder e que se propaga na mídia a serviço do capital, é tudo culpa dos "direitos humanos"! A charge do jornal carioca, Correio do Brasil, faz uma bela síntese do ficcional Brasil "Paz e amor".

 



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 01h22
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