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Crime, império e impunidade: As quadrilhas de exploração da Fé e a crise na crença em Deus

 

: Rubrica: filosofia. Na escolástica, crença religiosa sem fundamento em argumentos racionais, embora eventualmente alcançando verdades compatíveis com aquelas obtidas por meio da razão (Dicionário Houaiss Eletrônico)

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Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos. (Matheus, 24.11)

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Segunda-feira, 02 de novembro: Dia de Finados. Os principais portais da internet de notícias de São Paulo estampam a “Marcha para Jesus” que segundo estimativas da Polícia Militar embarcaram um milhão de pessoas no show religioso na capital paulistana. O mesmo destaque da “marcha” sairá nas capas impressas de todos os jornais paulistanos nesta quarta-feira. A fé que movimenta mercados, ganha votos, constrói impérios e fortalece quadrilhas.


Com direito a trios elétricos, fáceis discursos de louvores a Jesus e óbvias invocações aos pseudo-moralismos, o movimento foi muito mais que uma “ação religiosa”. Com a adesão de outras seitas que utilizam a religião para seus obscuros interesses, a “Marcha para Jesus” é promovida pela seita religiosa denominada “Renascer em Cristo” de propriedade do casal Estevam e Sônia Hernandes. O destaque este ano da “marcha” vai para o uso como palanque de políticos como o senador Marcello Crivella (PRB-RJ) principal braço político da maior seita religiosa do país, a Igreja Universal de Edir Macedo e de outros políticos menores ligados às seitas de diversas denominações, como o “homem de fé”, Bispo Gê (DEM-SP) ligado à própria Renascer. O evento também marcou a primeira exibição pública do casal Hernandes que retornaram ao Brasil após cumprirem pena nos Estados Unidos por crimes de contrabando de dinheiro e conspiração para contrabando de dinheiro. Comprovada pelas autoridades estadunidenses, o casal da Renascer são pessoas de idoneidade ilibada! Vale a pena uma nota do surrealismo deste gênero de “show da fé”, além da mescla de artistas e papagaios de palanque de olhos esbugalhados para as eleições do próximo ano, foram montadas duas piscinas para realizar “batismos”. Que show, “my God”!


A “marcha” deste ano foi batizada com um pomposo título que merece menção: “Marchando para derrubar gigantes”. Certamente o casal Hernandes deveria estar se referindo a Justiça dos Estados Unidos os quais ainda possuem pendências, pois a Justiça brasileira é totalmente míope, omissa e leniente com as quadrinhas que utilizam do mote religioso para formarem impérios do crime. Previsivelmente estúpida é a retórica esfarrapada do discurso dos chefes destas máfias organizadas, denominadas “igrejas” ao reportar à balela da “discriminação” ou “perseguição religiosa” de suas organizações. Deixando o PCC e o Comando Vermelho no chinelo, muito melhor do que o negócio do narcotráfico e contrabando de armas, a exploração da fé religiosa é muito mais simples, fácil e exponencialmente lucrativa; principalmente num mundo mercantilizado e desnorteado de valores básicos de conduta e dignidade humana. A era do excesso também é a era do atrofiamento da crença e da vertigem existencial.


Que o mercado da fé é tão velho quanto Adão e Eva ninguém deve pairar alguma significativa dúvida. O que distingue as antigas das atuais seitas é o seu potencial canalizador de recursos numa rapidez impressionante para construir impérios econômicos. Guerras, crimes, pilhagens, torturas, banhos de sangue e tantas outras atrocidades foram cometidos pelos homens em nome de Deus. O mercado das crenças sempre foi o mais lucrativo de todos os negócios bem antes da construção do capitalismo como sistema econômico como um auspicioso avassalador e acumulador de riquezas e bens materiais. O temor a Deus ou a força de coerção divina foi um grande modelador de atitudes e comportamento imposto por um grupo de comando aos seus subordinados. A ideologia religiosa sempre foi um poderoso estratagema na construção de impérios políticos e econômicos, privados ou públicos. Na ausência absoluta de respostas para simples (porém, não triviais) questões existenciais, o nome de Deus ventilou ao longo dos séculos para servir como um cobertor existencial que amenize o sofrimento e um alimento existencial para a esperança e dor. Aliás, nada mais humano que a necessidade de continuar “vivo” perante a total desesperança do seu meio circundante. A fé é a projeção do inconsciente para a construção de um imaginário simbólico a ser delimitado com “real”. Um dos principais estudiosos mundiais sobre mitos, o estadunidense Joseph Campbell, trás em suas análises uma provocativa e instigante construção teórica pela observação de grande similaridade de ritos e mitos que constituíram diversas crenças e religiões ao longo de diferentes sociedades possibilitando o nascimento de tais manifestações religiosas a partir de raízes ou geratrizes comuns. A religiosidade é, em muitos aspectos, uma necessidade tão humana quanto às necessidades fisiológicas, afetivas ou sexuais. A partir de tais premissas que se apoderam as diversas quadrilhas de exploração da fé ou da boa-fé alheia.


O império criminoso constituído pela seita da “Igreja Universal do Reino de Deus” (IURD) de Edir Macedo é um marco referencial do quão é lucrativa a exploração da fé. Dona de um império incalculável, a pujança econômica da IURD se enraizou por diversos setores da sociedade, fomenta financeiramente partidos políticos de quase todos os espectros ideológicos, além de ter seu partido próprio (com o irônico nome de Partido Republicano Brasileiro, PRB, aliás, sigla partidária do vice-presidente, José de Alencar) e constituir uma sólida base no Congresso Nacional. Ressalta-se o exponencial império midiático de Edir Macedo e sua IURD, dona de um sólido aparelhamento dos meios de comunicação (aquisição de rádios, jornais e televisões) e possui bases (os templos ou “igrejas”) em quase todas as regiões do planeta Terra (talvez a exceção ficasse sendo a ausência da “Universal” nos pólos gelados na Terra e no deserto do Saara!). A Renascer do casal Hernandes é outro império econômico que segue os mesmo passos da “co-irmã” Universal, com a aquisição de templos, canais de comunicação e enraizamento dentro de partidos políticos. Demais seitas com mote religioso seguem a mesma linha empresarial do crime organizado baseando no “pioneirismo” da IURD, tais como a “Igreja da Graça” de R.R. Soares, “Deus é Amor” de David Miranda, além de outras seitas mais exóticas como a “Sara Nossa Terra” e a bizarra e surreal “Bola de Neve”.


Que tais quadrilhas motorizadas pela fé sofisticam cada vez mais seu poder de atuação dentro da sociedade não é de causar estranheza. A retórica falaciosa do casal Hernandes sobre o “preconceito contra os evangélicos” é totalmente previsível na medida em que esta é a única “salvação moral” para ocultar seus crimes e salvar seus próprios pescoços atolados na lama do crime organizado. Como no exemplo bíblico da via-crúcis de Jesus Cristo, Edir Macedo e o casal Hernandes se equiparam na santidade de seus atos. Eles se projetam como a encarnação do próprio Jesus Cristo em sua jornada bíblica na Terra. Previsível e nenhum pouco sofisticado o patético discurso de “perseguidos”: tudo tão simples quanto dois e dois resultarem muito além de cinco.


Todavia, há poucos dias, causa espanto uma declaração completamente equivocada e desorientada do Presidente da República, Lula da Silva, em mais um evento eleitoreiro pró-Dilma. Na sanha por apoios esdrúxulos e coleta de votos, Lula desta vez pousou na inauguração de novo empreendimento da Rede Record de propriedade da Edir Macedo e sua Universal. Em mais uma das falas improvisadas de Lula, o presidente disse que a emissora de Edir Macedo é “vítima de preconceito” por parte de alguns setores da sociedade. Porém Lula “esqueceu” dos processos a respeito de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro contra a quadrilha de Edir Macedo que estão empacados na morosidade criminosa da Justiça. Bem, para quem há pouco tempo dizia que no Brasil Jesus se aliaria à Judas na política doméstica, talvez a fala de Lula soasse para uma pá de cal para alguns resquícios da moralidade na política. Neste ínterim, cabe uma reflexão: se Deus alia-se com o Diabo, estaria Ele menos “puro” ou Satã mais “divino”?


A impunidade da Justiça beatifica a construção de impérios do crime com a mesma facilidade que se constrói fáceis e ingênuos louvores à Jesus. Quanto aos partidos políticos toda a discussão é ignorada e os mesmos adotam o “discurso de avestruz”, inclusive os partidos que se auto-intitulam mais esquerda do leque político. Em troca de votos, qualquer fé é bem-vinda. Uma cara banalização ideológica na triste rotina de desorientação e omissão!


Nem o Diabo faria melhor e mais folclórico. A “Marcha para Jesus” é um grande espetáculo de liturgias midiáticas do vazio da fé imediatista. Um ótimo cartão de visitas para as quadrilhas que utilizam a exploração desta mesma fé, com promessas envoltas de um bizarro espetáculo que entre outras histerias coletivas. Como numa instantânea liquidação de fim-de-feira, os “bispos” destas seitas prometem aos seus desesperados fiéis “alcançar Jesus” pela via material aquisição de riquezas, emprego, casamento e “descarrego” (isto é, após cada fiel estar quite com o dízimo da fé!). O palco bizarro destas seitas é atacar os preconceitos sociais, culturais e sexuais e seus semi-divinos “bispos” prometem a cura miraculosa de enfermos, portadores de necessidades especiais, alcoólatras e usuários de drogas, “tirar mulheres da prostituição”, “extração de encosto provenientes de rituais afrorreligiosos”, “curar homossexuais” entre outras “benesses da cura divina”. Os espetáculos de insanidades são imensos e macabros provenientes dos discursos irresponsáveis e preconceituosos destas quadrilhas que operam como seitas religiosas. Cabe ressaltar também na raiz básica destas retóricas pseudo-religiosas é o esvaziamento existencial da grande massa de indivíduos que buscam a qualquer custo uma “iluminação” para suas vãs existências num mundo cada vez mais fugaz, efêmero, embrutecido e alienado.


Não é raro encontrar “fiéis” que depositam até o último níquel de suas famélicas economias nas mãos destes “bispos” acreditando que estará contribuindo para a construção do “Reino dos Céus”. Inconscientemente, é possível inferir no imaginário destes “fiéis” é o pragmatismo materialista e imediatista desta “modalidade de fé”. Uma vez que cada níquel depositado é a certeza que haverá um lote no Céu esperando por sua futura alma a migrar “desta vida para outra”.


A crise na crença em Deus. Quando a mercantilização da sociedade transborda para todas as esferas sociais e imaginárias, não é difícil de entender o quanto é impossível combater ou dizimar por completo as quadrilhas que exploram a ingenuidade, a ganância e o desespero existencial de uma miríade de fiéis com “descrédito” em Deus. Em outras palavras, a “Marcha para Jesus” é mais um exemplo de mobilização de um pragmatismo materialista e descrente de um idealizado poder divino do que meras obviedades de uma “exibição de fé”. Neste caminho, Deus e o Diabo são meros acessórios descartáveis do imaginário de uma complexa sociedade alicerçada pelo aprofundamento de um arraigar materialista e vazio existencial. O fosso existencial está muito mais abaixo do que aparenta as águas da discórdia e do desespero humano.



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 09h26
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Parte 1 de 3.

REINAÇÕES DO FALO: Em busca da maximização do prazer e mercantilização do Amor na Sociedade de Consumismo

 

O Amor é uma mentira;

para todos aqueles que acreditam que as demais coisas também sejam mentiras.

  


 1. A inveja do falo.

 Voltando de Araraquara à São Paulo, toca o celular de uma passageira situada no banco à minha frente. Com o ônibus relativamente vazio numa noite fria e nublada, ela começa a falar num tom moderado e depois exalta a voz. O que todos passageiros do ônibus puderam ouvir era uma típica briga de casais via telefonia móvel. O que era perfeitamente possível de entender era que o interlocutor, o namorado-parceiro (ou similar), estava comunicando à amante-namorada (ou similar) o desvelo do "grande mistério" que ele carregava na relação deles: e surgiu a fatídica "verdade" que o distinto cavalheiro era "casado"! Oh, Céus? Do desvelo em diante, percebeu-se o forte tom de reprovação e suposta insatisfação da passageira com seu parceiro. Como já previsto, começaram as típicas perguntas "quem era ela?", "que idade tem?", "como é o relacionamento entre vocês?", "você ama a sua mulher?".

Como quase todas as histórias similares a esta, o homem jamais fala a verdade ou, na melhor das hipóteses, procura camuflar à ausência da ética matrimonial com uma roupagem de "mistério" ou lacrimejar seu profundo sofrimento do "casamento em frangalhos". No seu comportamento de ostentar seu falo na sociedade, é o coito a tarefa primordial do homem de estar sobressalente em seu nicho social. Como é possível intermediar um orgulhoso diálogo com os amigos, sem contar as diabruras daquela circense "trepada" com a colega do trabalho, amiga da namorada/esposa ou a vizinha do outro quarteirão em meio aos resultados dos jogos de futebol do final de semana (coisa para macho, claro!)?[1]

Retornando à passageira do ônibus. Com o passar da conversa, o tom de voz se apaziguava e açucarava da passageira passou da hostilidade da "mulher-traída" à complacência da "mulher-mãe" e começa a partir daí uma série de "aconselhamentos amorosos" para o infiel interlocutor. Ela, a passageira aturdida, optava inconscientemente a agregar à sua fala o tom conciliador de "mãe acolhedora e racionalista" numa atitude que visava preservar a auto-estima e sublimar as conseqüências da grande "sensibilidade" do seu parceiro. Após um longo tempo de conversa em tom que era impossível não deixar de ouvir e o ônibus ao adentrar à rodoviária paulistana da zona norte da cidade, ela desliga o celular, desce o veículo e parte erguendo com altivez sua cabeça e puxando sua bagagem de mão como se nada tivesse acontecido. Vale comentar sobre o título do livro que a passageira carregava em suas mãos: "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel. Mais irônico impossível! Seria um estudo da ostentação do reino material sobre a ficção emotiva por parte da passageira? A questão a ser interpretada é tecer algumas interpretações de como seria possível analisar situações da instável relação prazer e amor na sociedade capitalista de consumismo tal como o caso dessa passageira em destaque.

Em "Totem e Tabu", Sigmund Freud alertou: "Não é fácil perceber por que qualquer instinto humano profundo deva necessitar ser reforçado pela lei. Não há lei que ordene aos homens comer e beber ou os proíba de colocar as mãos no fogo" [2]. Pelo empirismo do universo masculino, algumas certezas são passíveis de dedução. O distinto cavalheiro (outrora "patrono do coração da passageira do ônibus") possivelmente já estava insatisfeito ou saciado do sexo com a distinta "amante" e buscava descartá-la de alguma maneira anunciando o "insustentável" segredo. Seria patente ao acrescentar que o inconsciente da passageira de alguma maneira já sabia da natureza do "mistério" do seu parceiro, todavia era importante manter as regras do jogo entre "surdos-e-mudos". "Estar por cima, ou sair por cima" de condições existenciais é fundamental na efêmera construção do "ter e não ser". Naturalmente, no ego narcíseo da mulher pós-moderna, é muito mais sustentável ter um parceiro que lhe garante algum "status" de auto-realização pelo ego, ou seja, "ele é um homem 'misterioso´ e isto me atrai e excita". Naturalmente, o instinto natural do homem é a projeção da ejaculação narcísea representa pelo seu falo. O que confere o caráter do "macho" é o sentido que possa exercer seu papel de ejaculador primaz dentro no seu nicho social. Ninguém estaria impune dos seus impulsos narcíseos do homem. A projeção do "homem" na sociedade de consumismo é o seu caráter de "conquistar" em tempos bravios o seu "lugar ao sol". A imposição do macho é o modelo o qual cabe aos impulsos movidos à testículos de efetivar as vontades viscerais da emancipação do falo. Cabe então à mulher pós-moderna buscar uma alternativa existencial para que não seja destruído pela imposição do falo e assim desejar as mesmas pré-condições do homem. Neste caso, como veremos posteriormente, o "amor" é a tão temida desconstrução dos elementos narcíseos do sujeito.

Observando com um olhar mais pós-moderno da construção do imaginário afetivo da mulher do hiperconsumo, a "inveja do falo" é uma entidade abstrata de uma busca inalcançável da identidade do sujeito em igualar as mesmas conquistas narcíseas representada pelo falo do homem (em plenitude, forma e extensão). Se os movimentos feministas soerguidos na metade do século XX queimaram simbolicamente sutiãs em praças públicas visando dignidade e emancipação sobre as seculares atrocidades machistas, na hipermodernidade, a "inveja do falo" dita a esfera do consumo de uma insólita batalha agonística em busca de não sucumbir o Ego diante da falência da capacidade de autocontrole de suas própria existência. O ato de consumir dá um falso alento que é possível encontrar as rédeas do próprio caminho ou amenizar as insatisfações (caminhos para sublimar o desprazer). Na condução das relações objetais, ir às compras compulsivamente estaria no mesmo patamar da troca instável de parceiros sexuais ou supostamente afetivos. 

 



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 10h27
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Parte 2 de 3.

2. Édipo e Electra: arcabouços freudianos.

Para adentrar ao caminho de desvelo das relações de instabilidade neurótica da personalidade humana, é pertinente conhecer dois conceitos psicanalíticos freudianos, aliás, um que é o desdobrar do outro: o Complexo de Édipo e o Complexo de Electra

 

2.1 Complexo de Édipo.

O Complexo de Édipo [3], ou posição edípica, segundo Sigmund Freud é a etapa mais importante, no desenvolvimento da personalidade e, é nesta etapa que ocorre o temor a castração. O conceito de "castração" na Psicanálise é essencial para a construção e desenvolvimento do desejo e da personalidade do sujeito.

A psicanálise freudiana buscou conhecer todo o significado do simulacro referente à castração e suas singularidades afetivas, generalizando-a, para fazer dela o modelo das relações entre os filhos e seus pais. Dentre estas questões edípicas está sublinhada à fixação amorosa no progenitor do sexo oposto, agressividade hostil em relação ao do mesmo sexo, o qual é preciso destruir para atingir sua própria maturidade, dupla tendência que admite inumeráveis variantes. Segundo a análise da psicóloga Jacqueline Moreira:

"Dessa forma, o Édipo não é somente o "complexo nuclear" das neuroses, mas também o ponto decisivo da sexualidade humana, ou melhor, do processo de produção da sexuação. Será a partir do Édipo que o sujeito irá estruturar e organizar o seu vir-a-ser, sobretudo em torno da diferenciação entre os sexos e de seu posicionamento frente à angústia de castração" [4].

Na avaliação de Chevalier e Gheerbrant, a figura do Édipo simboliza a alma humana e seus conflitos, do ser humano capaz de loucura e de recuperação [5]. Para análise de Sigmund Freud:

A psicanálise revelou que o animal totêmico é, na realidade, um substituto do pai e isto entra em acordo com o fato contraditório de que, embora a morte do animal seja em regra proibida, sua matança, no entanto, é uma ocasião festiva (...) A atitude emocional ambivalente, que até hoje caracteriza o complexo-pai em nossos filhos e com tanta freqüência persiste na vida adulta, parece estender-se ao animal totêmico em sua capacidade de substituto do pai [6].

 

2.2 O Complexo de Electra.

O Complexo de Electra foi batizado a partir de um mito grego segundo o qual Electra, para vingar o pai, Agamêmnon, incita seu irmão Orestes a matar a mãe, Clitemnestra, e seu amante Egisto, que haviam assassinado Agamêmnon. Psicanaliticamente, a resolução deste período ocorreria da seguinte forma:
"a menina desistiria do pai original e, com a maturidade viria a possuir um substituto do pai (um homem) e, a sua ligação infantil com a mãe seria compensada, vindo ela a se tornar "mamãe" também, e desta maneira readquiriria as gratificações do relacionamento "mãe-filho". Uma ligação excessiva com o pai pode interferir na capacidade de transmitir sentimentos positivos a outras pessoas; pode vir a fazer com que ela assuma características masculinas (do pai) e assim ter tendências homossexuais. O medo excessivo da figura paterna (isto em casos de pais que são distantes ou não trocam afeto com as filhas) pode prejudicar a capacidade em lidar com pessoas do sexo masculino. Fica então evidenciado a existência do complexo de Édipo e o interesse da menina pelo pai.

Talvez seja interessante ressaltar que estudos prévios demonstraram que animais e humanos geralmente escolhem parceiros que se parecem com eles mesmos, tendência chamada de homogamia. Cientistas da Universidade de Pécs (Hungria) e da Universidade Estadual de Wayne (EUA) acreditam que a homogamia em humanos ocorre em parte por causa de 'impressões sexuais' [sexual imprinting] causadas pelo pai na menina durante a infância. Sob a olhar da psicanálise de tradição freudiana, o fenômeno poderia ser atribuído à atração que as mulheres sentiriam pelo pai -- o Complexo de Electra, contrapartida feminina do Complexo de Édipo. Os autores do estudo atual, no entanto, têm uma explicação diferente daquela proposta pelos seguidores de Freud. Os pesquisadores acreditam que a criança tende a criar um modelo mental do fenótipo do pai que é usado como parâmetro para a escolha de um parceiro. Segundo o psicólogo estadunidense Glenn E. Weisfeld, "Parece que, durante um momento crítico ou sensível da infância, um processo de 'impressão sexual' constrói um modelo do pai, que fica registrado no cérebro da menina. Algumas evidências sugerem que fatores olfativos e visuais podem estar envolvidos"[7].

 

 

3. O Amor como totem do imaginário de consumo e a sua impossibilidade de efetivação.

Existe no imaginário feminino um culto inconsciente que se remete à figura singular e sedutora de Afrodite [8]. Potencialmente, cada mulher carrega consigo seu desejo de ser ornamentada e conquistada pela sua beleza física e suas potencialidades que crivam as zonas de erotismo velado ou não. A indústria da estética sabe muito bem como tirar proveito deste imaginário feminino e faturam bilhões de dólares anualmente com uma miríade de produtos para aflorar o "desejo" e inflar o mito da "perfeição estética" em cada uma de suas consumidoras. Na clássica obra, "A arte de amar", Eric Fromm sustenta que:

"Numa cultura em que prevalece a orientação mercantil, e em que o sucesso material é o valor predominante, pouca razão há para surpresa no fato de seguirem as relações do amor humano os mesmos padrões de troca que governam os mercados de utilidade e trabalho" [9].

Para voltarmos à passageira do ônibus de descobriu que seu "ideal de amor" era comprometido maritalmente, é importante considerar novas condições a serem analisadas.

Em primeiro lugar, a mulher tende a amar o ideal simbólico do imaginário do "amor" e não o objeto a ser amado. Por isto, tal como qualquer bem material, a troca de parceiros não significa necessariamente a idéia de diluição do "amor". Ninguém corará muito o rosto logo após que tocou o carro modelo antigo por um novo modelo mais versátil. O importante neste caso é a maximização do prazer que poderá ser representado sem avaliar com alguma sustentação as conseqüências e ilações em médio ou longo prazo do aparelho psíquico. Possivelmente, é neste âmbito de porosidade afetiva se situa o início das raízes do número cada vez mais crescente de casamentos estéreis na hipermodernidade, movidos à velocidade da mercantilização emotiva e durabilidade cada vez mais volátil.

Em segundo lugar, as relações objetais impregnam no inconsciente que o amor não está na relação afetiva mas na diluição na procura dos objetos. "Caso hoje e separo amanhã, e posso mudar tudo isto no dia seguinte", são construções da busca frenética de reconstituição do falo ausente na mulher. O poder de decisão de buscar um caminho de auto-preservação e auto-suficiência são requisito básicos para poder reconstruir a idéia de autonomia de si e assim assegurar a condição de auto-determinação do "falo".

Em terceiro lugar, a "vingança do pai" assumido na posição de Electra permite inconscientemente encarar o outro como um inimigo visceral a ser combativo, ou seja, a personalização do objeto de amor. E como seria possível atingir o pleno prazer quando as relações são egoístas e agonísticas? Para o controvertido e combatido, psicanalista Willhem Reich, a "função do orgasmo" estaria constituindo somente para a junção de pleno movimento de emancipação e liberdade. Seria a mulher (conceito extensível também ao homem) capaz de ter construir um movimento de total libertação?

Em quarto lugar, Amor e prazer sexual são esferas totalmente distintas e que podem (e devem) ser complementadas como um único todo. O temor da "entrega total" para o outro é o significado que tal ato pode acarretar para o sujeito. A preocupação narcísea é a sobrevivência do Ego. A angústia de não sucumbir o Ego perante o outro acarreta um resistência de "sobrevivência" na esfera sentimental. É preferível dentro de uma sociedade materialista de consumismo, ter relações estéreis, mercantis e pulverizadas e que não cause nenhum abalo na estrutura do aparelho psíquico. "Transar com este e com aquele, ontem, hoje e amanhã", poderá dar uma falsa impressão de sustentabilidade e auto-afirmação do Ego e assim projetar o aparelho clitoriano como a afirmação do falo faminino. Todavia, esta construção da fantasiosa do imaginário feminino nunca escapará da eternidade do vazio existencial após cada gozo mercantil da sua agenda superlotada de excrescência da libido. Para o homem, o coito se torna uma necessidade de demonstração de sua identidade e virilidade no nicho social (em contrapartida, o fantasma da impotência seria o testamento da sua morte viril e psíquica). Já para a mulher, o gozo clitoriano ou vaginal é a necessidade de estar simplesmente viva e ainda carregar consigo o desejo de ser "mulher em plenitude", ou seja, acreditar na "possibilidade de amar o Amor" acima de todas as coisas (mesmo que veladamente e nunca admita para o outro ou no casulo de sua esfera de influência social e afetiva).

No hiperconsumo atingir a plenitude do Amor é impossível, um mero mito. Uma vez quer para o amor é necessário um desapego da matéria (somente no ato da maternidade é possível ainda ser visto o desprendimento material coexistente na relação "mãe-filho"). E conforme já foi destacado, segundo Reich, somente uma fusão entre prazer sexual e amor seriam os fatores de libertação e emancipação do ser humano e o que potencializaria a ter uma cosmovisão superior às propaladas pelas relações objetais movidos pelas concepções materialistas. Logo, a construção da plena liberdade emancipatória de homens e mulheres com bases em premissas mercantilizadas é simplesmente impossível. 

 



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 10h12
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Parte 3 de 3.

Notas:

  


[1] Numa reportagem de um noticiário de televisão sobre a dispersão da AIDS em trabalhadores de transporte de carga, um caminhoneiro ao responder uma pergunta feita pelo repórter se ele usava preservativos nos relacionamentos com prostitutas e se o mesmo distinguia relações preferenciais com mulheres ou transexuais, disparou: "Eu não uso nada e o importante mesmo é o buraquinho", salientou alegremente o distinto cavalheiro. Claro, a sexualidade é coisa de "macho", dono imperial do falo ejaculador! 

[2] FREUD, S. (1974). Totem e tabu. (J. Salomão, Trad.). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIII, pp. 13-168). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1913). 

[3] Édipo é o herói lendário da tragédia grega, que se tornou o eixo principal da psicanálise moderna: o complexo de Édipo. Advertido por um oráculo de que, se tivesse um filho, este o mataria, Laio, o pai de Édipo, mandou perfurar os tornozelos de seu filho, quando este nasceu, e ligou-os com uma correia; daí este nome de inchado (Édipo). O servidor, que devia abandoná-lo para que morresse, entregou-o a estrangeiros, pastores ou reis, conforme as lendas. Eles tomaram conta da criança. Já adulto e indo ter a Delfos, Édipo, por causa da prioridade de passagem num desfiladeiro estreito, mata Laio, ignorando que este era seu pai. Cumpriria assim o oráculo, sem o saber. Na estrada de Tebas encontra a Esfinge, um monstro que devastava a região. Ele o mata, é aclamado rei e recebe como esposa Jocasta, a viúva de Laio, sua própria mãe. Mas em conseqüência de oráculos obscuros do adivinho Tirésias, Édipo descobre que assassinou seu pai e desposara sua mãe. Jocasta se mata; Édipo arranca os próprios olhos. [CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.] 

[4] MOREIRA, Jacqueline de Oliveira. Édipo em Freud: o movimento de uma teoria. Psicologia em Estudo. [online]. 2004, v. 9, n. 2, pp. 219-227. ISSN 1413-7372. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722004000200008 Acesso em 04 dez 2008. 

[5] CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

[6] FREUD, S. (1974). op. cit. 

[7] ALBUQUERQUE. "Tal sogro, tal genro: Estudo sugere que mulheres tendem a escolher maridos parecidos com os pais". Ciência Hoje On-line, 11 mai 2004. Disponível em: http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/1812 Acesso em: 03 dez 2008.

[8] Para a mitologia grega, Afrodite (Vênus) é a deusa da mais sedutora beleza, cujo culto, de origem asiática, é celebrado em numerosos santuários da Grécia, principalmente na ilha de Citera. Filha do sêmen de Urano (o Céu) derramado no mar, após a castração do Céu por seu filho Cronos (daí a lenda do nascimento de Afrodite, que surge da espuma do mar); esposa de Hefestos, o Coxo, por ela ridicularizado em várias ocasiões. 

[9] FROMM, Eric. A arte de amar. Belo Horizonte: Itatiaia, 1966, pág. 21.



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 09h55
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NOTA AO LEITOR:
Este é um texto de divulgação preliminar e especialmente formatado para os leitores deste BLOG a partir de trabalho submetido e aprovado para o "X Congresso Luso-Afro-Brasileiro" e deverá ser apresentado em Portugal (Braga, 2009). Artigo constituinte da série de trabalhos que buscarei tratar do estudo e reflexão a respeito da "sociedade do consumismo" como elementos de projeto de pesquisa.


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A VELOCIDADE PARA O VAZIO:
Brevíssimo Ensaio sobre o Desvelo da "Sociedade do Consumismo"

 
 
 
"Quando se patina sobre o gelo fino, a segurança está em nossa velocidade."
(Ralph W. Emerson)



1. Prólogo.


Osasco, região da Grande São Paulo, quinta-feira, 20 de novembro. Entro numa livraria de um shopping-center local, e em meio à diversidade de livros de auto-ajuda acabei me deparando um título inusitado: "Selma"[1]. Segundo a publicidade anexa à pilha de livros, foram vendidos mais de 400 mil exemplares do título que foi traduzido para dez diferentes idiomas -- um best-sellers! E para minimizar minha ignorância: quem ou o quê era Selma? A capa do livro já denunciava, mas apelando para meu "ateísmo-cristão" e invocando à incredulidade de São Tomé, não custava folhear a "obra-prima". Enfim, ler para crer: Selma era uma simpática ovelha que dava aconselhamento emocional à cada página folheada no melhor estilo de "receita de bolo" para que seu angustiado leitor possa alcançar mais rapidamente a tal "felicidade"! As "lições" da simpática "ovelhinha do Bem" se somam à uma miríade de títulos que promete em doses homeopáticas o que todos anseiam vorazmente, ou seja, a materialização do impossível gozo total na tradução "mágica" da palavra "felicidade"[2].



2. Elementos para uma Sociologia do Consumo: "Amo tudo isso"?

A sociedade de consumo massificado, a priori, utilizando-se o termo "sociedade do consumismo" (que também poderá ser entendida como uma extensão da "sociedade de hiperconsumo" na acepção de Gilles Lipovetsky[3]), é a busca insaciável e imediata pela idéia da possibilidade de encontrar a "felicidade", seja ela qual for seu formato, significado ou essência. Com o aperfeiçoamento das estruturas capitalistas, o consumo de mercadorias vai além de sua mera aquisição de suporte à existência e a sobrevivência humana. No mundo ocidentalizado e globalizado pela complexidade de eventos e informações, trouxe o advento da hipermodernidade, marcada por dois pilares fundamentais: o mercado liberal e a democracia.

O hiperconsumo vai além das necessidades básicas e transforma mercadorias em mecanismos de prazer individualista e egocêntrico. A mistificação e o caráter fetichista fazem com que as mercadorias assumam significados que ultrapassam as suas bordas de meros objetos inanimados e adquirem vida autônoma no lastro da sociedade de consumo. Nunca na história das sociedades ocidentais foi possível produzir velozmente uma miríade de bens materiais possibilitando a conquista de um elevado padrão de bem-estar. No entanto, com o hiperconsumo, tudo se configura em mercadorias consumíveis, onde não existem limites na busca frenética para a saciedade.



3. Consumo, logo existo.

A sociedade do consumismo é aquela onde são emersas todas as promessas que possam ser atraentes e cativantes e, por sua vez, nunca realizadas ou saciadas pelos seus consumidores. Para tal intento, é necessária uma construção simbólica e afetiva que liga a mercadoria ao seu consumidor potencial. A reificação da mercadoria é uma característica da moderna sociedade capitalista e no hiperconsumo existe uma correção também afetiva que não poderá ser descartada. A aquisição de um aparelho de telefonia móvel, por exemplo, não serve apenas para realizar uma simples comunicação entre os indivíduos, mas algo que se torna um objeto com "vida autônoma". Uma miríade de acessórios é criada para adornar o aparelho celular, incluso aí "vestimentas" e diversos adereços que dão "vida" ao objeto inanimado. Aqui, insisto na questão de um amplo dimensionamento da afetividade impregnada na hipermodernidade onde as relações entre objetos e indivíduos estão no mesmo patamar de interações possíveis repercutindo em todas as esferas de consumo.

A vida cotidiana numa sociedade onde consumo desenfreado é imperativo se constituiu em relações objetais. O vazio intrínseco dos relacionamentos afetivos é tão profundo que o ato do casamento, antes de tudo, se tornou muito mais um grande lucrativo negócio para a "indústria do matrimônio". A liquidez efêmera dos laços afetivos possui a mesma dimensão imediatista para saciar o desejo, tal como a aquisição de qualquer mercadoria na prateleira de supermercado. A "indústria cultural", termo trabalhado inicialmente por Theodor Adorno e Max Hokheimer era uma crítica a sociedade do consumo de massa (transformação da cultura em mercadoria[4]) e, pela égide antropofágica do capital, tudo parece ter sua própria "indústria" para atender a demanda consumista: das curas milagreiras de pastores neopentecostais ao circuito velado do sexo explícito.



4. Consumir, gozar e descartar.

Coisas e pessoas estão no mesmo nível de possibilidades de consumo, ou seja, os laços mercantis se aprofundam na dimensão da relação íntima do consumidor com o seu objeto desejado. Adquirir um modelo mais atualizado de carro, um novo parceiro sexual ou talvez o mais novo modelo de iPod? O que poderá trazer maior satisfação imediata para o consumidor na angústia de ser "feliz" visando preencher o vazio suscitado pelo aparelho psíquico inerente do hiperconsumo? Transcrevendo uma das assertivas de Zygmunt Bauman, "para que as expectativas se mantenham vivas e novas esperanças preencham o vazio deixado por aquelas já desacreditadas e descartadas, o caminho da loja à lata de lixo deve ser curto e a passagem, rápida"[5].

Um retrato pertinente são as campanhas publicitárias do totem de consumo-mor das sociedades ocidentalizadas: o automóvel. Nas peças publicitárias, a idéia impregnada não é "vender" meramente uma mercadoria, mas construir a simbologia do objeto, ou seja, uma verdadeira "adoração" pela mercadoria por meio da hipertrofia de um fetichismo erotizado e sedutor. Mulheres belas e "fatais", velocidade, classe, estilo e paisagens surreais mapeiam o cenário idílico e viril da propaganda televisiva: será que você é digno de possuir tal mercadoria? -- diz implícito (ou explicitamente) o mote da propaganda. Neste campo de patente reificação, não é o consumidor que escolhe a mercadoria, mas é justamente o contrário: a mercadoria que "escolhe" seu potencial consumidor e em troca é a "conquista" da satisfação plena e gozo total[6].



5. Necessidades coletivas, ações atomizadas.

A política é sucumbida pela via do mercado e a liderança da autoridade é apenas uma commodity desta liberdade de suposta emancipação e conduzindo à uma desterritorização do espaço público. A democracia liberal se estabelece meramente por via de processos eleitorais e tampouco se trata de uma democracia de acesso aos meios de produção. A mobilidade social é mais uma ilusão que se acrescenta no ideário do liberalismo da democracia política. Tais como a proliferação dos shopping-centers, os espaços privados de consumo substituem os espaços públicos livres da opressão consumista. A autonomia é arregimentada pelas "forças do mercado" e moldada pela tirania das marcas esvaziando-se os sentidos e significados do coletivo em prol da saciedade nunca satisfeita do indivíduo.

O "espaço político" é um entreposto possível entre a política desejada e os interesses de fomentadores financeiros das campanhas políticas (patrocinado por grandes corporações econômicas). Uma campanha política "vitoriosa" se tornou em sua essência um show midiático com as mesmas concepções que se vende um novo lançamento automotivo da corporação automobilística ou uma caixa de sabão em pó "de marca". Carros, políticos e sabonetes estão disponíveis no mercado para o usufruto do seu consumidor com quase todas as premissas derivadas de uma boa campanha de marketing. Poderia a política coibir as práticas coercitivas do consumo midiático uma vez que seus atores políticos são financiados pelas grandes corporações?

Dentro do rol programático entre partidos da direita e da esquerda do espectro político, transformam a idéia de espaço público numa alegoria em desuso. A privatização da política destina em entregar ações coletivas nas mãos dos indivíduos em decisões atomizadas. Na diluição dos partidos políticos, cabe a agremiações privadas, tais como as organizações não-governamentais (ONGs), trabalharem com a "coisa pública" de acordo com as diretrizes dos seus sócios. Seguindo à lógica de privatização do espaço público, a idéia vaticinada pelos pedágios em estradas e vias de acesso é uma clara demonstração que somente é possível construir uma sociedade com ações atomizadas. Logo, cabe então ao cidadão-consumidor arregaçar as mangas e resolver por si mesmo todas as ações que deveriam ser necessariamente construídas coletivamente. Na sociedade dos indivíduos à única política possível é aquela que satisfaz as urgentes necessidades de consumo individualizado e narcíseo. Assim ressalta Michel Maffesoli: "É importante levar a sério o descaso para com os diversos ativismos que marcaram a modernidade (política, produtiva): aquilo que não depende de nós torna-se indiferente"[7].



6. Das inconveniências da cidadania à cultura narcísea da sociedade dos indivíduos.

Um lançamento local de uma mercadoria será um evento mundial se sua produção estiver de uma forma conectada à alguma empresa capaz de transacionar seus interesses globalmente. Nessa esfera de "satisfação", todas as mercadorias prometem a satisfação plena, sedutora e imediata do seu consumidor. Estampada em capas de revistas ou na televisão, as "tecnologias da saúde" estão acessíveis ao mercado consumidor com suas fórmulas que prometem aos seus usuários todos os sortilégios inerentes à felicidade, perfazendo desde as promessas da hercúlea virilidade movida à Viagra à amenização do desprazer na composição do Prozac. Por sua vez, a indústria farmacêutica desprende percentual significativo do total de seus de investimentos no uso sistemático da máquina de construção de marketing de seus produtos para o mercado. Os medicamentos deixam de ser condicionantes para a recuperação e profilaxia de moléstias e enfermidades para se tornar também alvo de objetos de consumo sem prescrição médica [8].

Quem não consome ou não tem condições de consumir é um pária deste sistema [9]. O capitalismo supera os demais sistemas ideológicos-socioeconômicos quando mantêm em suas bases fundamentais premissas que nenhum outro sistema promete ou consegue se sustentar: a possibilidade de satisfação material e sensorial dimensionada na saciedade do gozo total. O consumidor nunca está satisfeito com o gozo parcial e possível, e logo deseja atingir sempre a maximização de sua satisfação e assim alcançar o que ele acredita ser a "felicidade" tão ansiada. Segundo a análise de Maffesoli, "o gozo não mais é remetido a hipotéticos e 'róseos amanhãs', e sim vivido, seja lá como for, no presente"[10].

As relações objetais [11] são constituídas na esfera da mercadoria e adquire alguma consistência afetiva na medida em que seja possível encontrar os mecanismos sensoriais do gozo total na psicopatologia da sociedade de consumismo. Num sistema onde o culto à aparência contribui na mediação entre seus indivíduos, a segurança é vital para diminuir a insegura angústia e fragilidade do indivíduo. "Estar à frente da tendência de estilo", como ressalta Bauman[12], significa uma tentativa de encontrar a si mesmo (ou seja, o indivíduo-consumidor) num mundo onde suas relações materiais e imateriais são mercantis, líquidas, efêmeras e passageiras.

Na hipermodernidade a cultura do "corpo perfeito" é o objeto de desejo, ostentação e auto-identidade ansiado a qualquer custo dentro e fora das academias de modelagem estética. Dentro das estruturas psicopatológicas desse processo, dois fenômenos distintos na forma, mas unívocos em sua dimensão referentes aos estilos de vida do hiperconsumo: a obesidade e a anorexia. Sedentarismo, compulsão alimentar, vaidade, angústia e vergonha são elementos intrínsecos de um modelo de vida onde a forma sobrepõe o conteúdo. No caso da obesidade, típico das sociedades modernas de consumo, são os excessos alimentares aliada ao sedentarismo que dão vazão à inseguraça e angústia do vazio. No caso da anorexia (também conhecida como "anorexia nervosa") ocorre mais comumente em mulheres jovens e, em linhas gerais, como descreve Anthony Giddens, "(...) pode ser entendida como uma patologia do autocontrole reflexivo, operando em torno de um eixo de auto-identidade e aparência corporal, em que a vergonha desempenha papel preponderante"[13].

A erosão da identidade permite que o indivíduo somente passe a sobreviver no limite imerso num mundo de liquidez de valores e a transformação do próprio corpo como elementos atávicos de sua construção da auto-identidade. Desta maneira, o "corpo perfeito" é ditado pelo consumo, ou o que os "outros" (ou seja, as "as concepções estéticas do mercado") ditarem como "modelos padronizados" a serem cultuados e mimetizados. Para trilhar estes caminhos, são importantes os estudos de Michel Maffesoli a respeito do estudo das "tribos" e o processo de construção da identidade da sociedade dos indivíduos dentro do hiperconsumo. Ainda é fecundo analisar também que tais indivíduos anseiam se desvencilhar da "multidão" na medida em que se inserem em "tribos" que coadunam com seus ideais de consumo e estilo de vida (processo que pode ser identificado pela "individualização" pelo coletivo). Para isto procuram até mesmo mutilar seu próprio corpo mais bem caracterizado pela ostentação de adornos de metal e similares, os chamados piercings, além da dispersão de tatuagens que marcam o corpo de forma à chamarem atenção para si [14].



7. Epílogo: O insaciável moto-contínuo.

Na sociedade de consumismo o indivíduo existe na medida em que consome para além de suas necessidades e fazendo parte da cadeia de replicação do eixo produção-consumo-insaciedade. Todavia, a possibilidade de chegar a mecanismos de satisfação pessoal nunca se concretiza e os indivíduos convertem um possível advento da felicidade em ansiedade e angústia. As construções da hipermodernidade trazem conseqüências deletérias para a constituição da sociedade e permite o aprofundamento do fosso social que gera e amplifica a barbárie.





Escrito por Wellington Fontes Menezes às 02h56
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Notas:

[1] BAUER, Jutta. Selma. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
[2] Numa rápida busca no site da Livraria Cultura, uma grande empresa paulista especializada no ramo, foi encontrado 239 títulos com a palavra "felicidade" estampada na capa.
[3] LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[4] ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
[5] BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2007, p. 108.
[6] A análise do automóvel como um dos principais elementos de reificação na sociedade consumista merece uma atenção pormenorizada à parte pelas dimensões psicanalíticas que envolve seu estudo e que escapa do objetivo do presente trabalho.
[7] MAFFESOLI, Michel. Notas sobre a pós-modernidade: o lugar faz o elo. Rio de Janeiro: Atlântica, 2004, p. 45.
[8] Não é de causar estranheza que a maioria das farmácias disponíveis numa cidade como São Paulo são verdadeiros shopping-centers onde é possível encontrar uma miríade de produtos, inclusive medicamentos!
[9] O capitalismo globalizado é movido à disponibilidade de crédito no oceano da volatilidade especulativa financeira. Praticamente é possível dizer que toda crise dentro do capitalismo é movida à superacumulação, superprodução, colapso de liquidez recaindo na pulverização da "confiança" dos mercados. A primeira grande crise do capitalismo estadunidenses do século XXI (a quebra de Wall Street, 2008) teve como prenúncio com a falência creditícia do setor imobiliário. Quando as artérias da bolha de consumo via crédito muito facilitado e se encontraram interrompidos, estará em risco os próprios alicerces moldais das roldanas do sistema capitalista. Não consumir significa estagnar o estoque de produção e assim causar um desequilibro no instável castelo de cartas onde se apóia todos os atores e "players" globais do modelo. Diante do colapso econômico estadunidense e com a retomada do "keynesianismo civil", a utilização das reservas do tesouro dos Estados Unidos para injetar no setor privado em torno de 5,6 trilhões de dólares (previsão a ser alcançada até o limiar de 2009) . Deste montante, uma parte é para salvar da falência empresas que quebraram no cassino financeiro global (ou seja, a socialização das perdas privadas movida à dinheiro público do contribuinte -- o capitalismo sem riscos!) e o restante é para reaquecer o mercado de crédito e recuperar a "confiança" dentro do mercado de consumo estadunidense.
[10] MAFFESOLI, Michel, ibid., p. 29.
[11] No esforço de aproximação da Psicanálise para o presente estudo, compreendo que não se concebe o objeto separado da qualidade do relacionamento com o sujeito.
[12] BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008
[13] GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
[14] Aqui está presente um tom de desespero do self em busca de identidade e identificação pelo "outro" e a insegurança de não sucumbir ao vazio.



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 02h51
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A América Racista: Intolerância, Preconceito e Ódio nos Subterrâneos dos Estados Unidos

Barack Obama consolidou sua vitória nas eleições presidenciais dos Estados Unidos construindo um poderoso leque de alianças com diversos setores da sociedade estadunidense, incluindo neste nicho os setores financeiros mais poderosos e apoios de grupos multirraciais. De um quase desconhecido senador democrata do estado de Illinois em 2004 para o homem no cargo mais poderoso do planeta, o "fenômeno" Obama não apenas angariou amplo apoio em torno do seu nome, mas também poderá suscitar os intranqüilos fantasmas xenófobos dos escombros de uma sociedade que busca impor fora do seu território um modelo imperialista com a cosmopolita bandeira da democracia (claro, nos moldes da política estabelecida por Washington).

O fato de ser o primeiro presidente negro da história estadunidense não apenas se tornou motivo de grande esperança e entusiamo para comunidade afrodescendente daquele país, mas sobretudo passou a vingar um sentimento de insegurança e preocupação para o serviço secreto dos Estados Unidos. Após o rescaldo da euforia eleitoral proveniente da Onda Obama, certamente um dos grandes desafios do futuro presidente estadunidense é garantir o cumprimento do seu mandato ileso, se esquivando fisicamente do ódio racial de grupos fascistas que ainda lutam pela "supremacia branca" dentro do interior dos Estados Unidos. Certamente, se manter vivo nos próximos anos não será uma tarefa muito fácil para o presidente Obama e seus seguranças. Desta vez, o "grande mal" não serão os propalados "terroristas" de Osama Bin Laden ou grupos extremistas muçulmanos espalhados pelo Oriente Médio e Ásia que salvaram do ostracismo a administração do primeiro mandato de George W. Bush e mobilizou o império para sua babilônica "cruzada contra o terror". Ao ganhar a inédita corrida à Casa Branca, Obama correrá o risco de dormir com o inimigo e não acordar mais de seus sonhos.

Segundo matéria do diário carioca, Jornal do Brasil, a ONG estadunidense Southern Poverty Law Center (SPLCenter), com sede no estado do Alabama, mapeou 762 grupos racistas nos Estados Unidos, ligados a seis organizações diferentes. Desse total, 161 são agrupados na categoria ''outros'', que não têm uma linha específica de ação. Destaque para as três principais organizações que pregam a xenofobia explícita dentro dos Estados Unidos: a histórica Ku Klux Klan, os neo-nazistas que são os resquícios da ideologia do nazismo alemão e um nicho de afrodescendente de intolerância reunidos nos Separatistas Negros.

A Ku Klux Klan, a mais antiga das organizações racistas que apregoam o catecismo da "supermacia branca" dentro do território estadunidense, tem 162 grupos associados e surgiu no fim da guerra Civil, em 1865, quando perseguia os negros no Sul do país. Ao longo dos anos, estendeu seu ódio aos judeus, homossexuais e, mais recentemente, aos católicos. Há oito décadas, os números da Ku Klux Klan impressionavam: cerca de 5 milhões de integrantes. A matéria do Jornal do Brasil ainda ressalta que o SPLCenter admite que o número atual é estimado em 7 mil integrantes e poderá ser maior, uma vez que hoje em dia muitos dos filiados preferem manter sua identidade em segredo.

A segunda maior organização xenófaba são os neo-nazistas, com inspiração nas pregações de Adolf Hitler que comandou a política do nacional-socialismo (nazismo) na Alemanha (1933-1945). A facção estadunidense neo-nazista concentra seu ódio nos judeus, mas também perseguem gays e cristãos. Têm 158 grupos cadastrados. Também atacam os judeus 28 grupos ligados à Identidade Cristã, de brancos. Pouco antes da vitoriosa eleição de Obama, a inteligência secreta dos Estados Unidos prendeu dois jovens neo-nazistas em solo estadunidense acusados de armarem um suposto plano para assassinar o então candidato democrata.

Os Separatistas Negros representam os valores xenófobos da "supremacia negra" estadunidense e têm 108 grupos cadastrados e são a terceira maior organização racista do país. Tal grupo se opõe à integração das diferentes raças chegando até mesmo a pregar a criação de uma nação negra. E, embora formada por integrantes de uma das minorias atacadas pelos segregacionistas brancos, é considerada pelo SPLCenter tão racista quanto as outras organizações. O paradoxo pode ser preocupante se o ódio extrapolado de um grupo que exalta uma "supremacia negra" arquitetar contra a vida de um representante afrodescendente, uma vez que é possível que seus membros possam se sentirem "traídos" ao longo da administração de um presidente negro.

Segundo a Agência AFP, o site do Ku Klux Klan, advertiu nesta semana para as conseqüências de uma administração Obama. "Muitos brancos deste país vão despertar", com a eleição de Obama, afirmou um intitulado Thomas Robb. Ainda seguindo a matéria da Agência AFP, em carta ao serviço secreto estadunidense, Bernnie Thompson, um membro do Congresso negro de Mississippi, escreveu "Como afro-americano que foi testemunha de alguns dos dias mais vergonhosos da história deste país durante a luta do movimento pelos direitos cívicos, sei que o ódio de alguns dos nossos concidadãos pode levar a horríveis atos de violência".

Não apenas grupos racistas que se declaram abertamente ou franco-atiradores de típicos assassinatos em massa dentro das escolas estadunidenses se constituem num real perigo para o presidente Obama. É importante destacar que grandes interesses de grupos políticos e econômicos são os maiores assassinos de líderes ao longo da história da humanidade. Para o mesquinhos interesses das "corporações", as grandes empresas do capitalismo mundial, nada e absolutamente nada parece está acima dos seus lucros bilionários. Como bem ressaltou matéria da Agência AFP: "A cor do novo presidente é apenas uma das fontes de preocupação suplementares, em um país que tem 200 milhões de armas de fogo responsáveis por 30.000 mortes por ano, onde quatro presidentes foram assassinados no exercício de suas funções e onde vários outros foram alvos de tentativas de assassinato."

Os assassinatos de ativistas e líderes negros é tão enraizados na cultura de grupos xenófobos estadunidenses que as preocupações com a segurança de Obama serão cada vez maiores. Naturalmente, qualquer um no cargo de chefe-mor da Casa Branca que tem a envergadura de poder acionar o maior arsenal bélico do mundo e destruir a Terra por completo, independentemente de qualquer situação fora da "normalidade" já causaria grande celeuma na equipe de segurança pessoal. Adicionando a cor da pele, a tarefa para o serviço secreto de proteção ao presidente irá se multiplicar. Martin Luther King e Malcom X, dois dos principais nomes do ativismo negro estadunidense assassinados na década de 1960 pelo ódio racial são trágicos exemplos que a barbárie é tão resistente quanto o desejo de liberdade e emancipação humana.

 

Para ler mais

AGÊNCIA AFP. Um dos próximos desafios de Obama será sua própria segurança. 6 Nov 2008. Disponível em:   http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2008/11/06/ult34u213872.jhtm. Acesso em 6 Nov 2008.




Escrito por Wellington Fontes Menezes às 12h19
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A Eleição do 'Crash': Da Onda Obama à Realidade do Fim do Estado de Bem-Estar Social

A gerência do maior complexo militar do planeta troca nominalmente de mãos em um momento de inflexão histórica. Madrugada de quarta-feira, 05 de novembro de 2008, assisto pela Record News, ao vivo e via satélite, o primeiro discurso do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Hussein Obama. Como nas típicas montagens cenográficas dignas das superproduções midiáticas de Hollywood, uma multidão comemora a vitória do candidato negro (mulato para os padrões brasileiros) à Casa Branca, no Grant Park, em Chicago, no Estado de Illinois, o qual Obama é o atual senador por este estado.


No histórico discurso de Chicago, Obama agradeceu seus correligionários, pediu a união do povo estadunidense e ressaltou o trabalho de Joe Biden, o eleito vice-presidente de sua chapa. Ovacionado por uma legião emocionada de adminiradores, após o discurso, sobe ao palco as mulheres de Obama e Biden e posteriormente seus familiares, uma espécie da grande confraternização da construção simbólica e suprarracial da "família da América", um dos pilares do conservadorismo estadunidense.


Barack Obama é um meteoro político e midiático. De um desconhecido senador negro (ou politicamente correto falando, afro-americano!) de Illinois em 2004 à "obamania" presidencial de 2008, Obama venceu uma dura batalha contra a pré-candidatura democrata da poderosa Hillary Clinton, considerada a favorita por muitos analistas, até ganhar finalmente a adesão se seu partido para ser o candidato oficial do Partido Democrata. A disputa com um cansado candidato do Partido Republicano, o veterano de guerra, John Mccain, e sua inusitada e atrapalhada candidata a vice-presidente, a governadora do longíquo Alaska, Sarah Palin, foi mais um período para confirmar junto ao eleitorado a supremacia do carisma midiático de Obama e a ressonância dos seus discursos sobre suas promessas de "mudanças" a serem implementadas em seu país. Vale lembrar da desastrosa campanha de Mccain e as gafes hilárias de uma pré-fabricada Palin (uma gafe inesquecível é a sua entrevista televisiva à uma jornalista a qual a vice de Mccain respondeu que não sabia quais jornais ela lia diariamente!). Soma-se ainda ao esforço de desvincular Mccain do fardo de ser o "candidato de Bush", considerado pelos próprios estadunidense com o seu pior presidente de todos os tempos (superando até mesmo o desastre da administração de Richard Nixon!).


Obama não economizou recursos e não fez uma campanha nada modesta para um candidato que concorria contra um republicano "desesperado" no páreo. Com uma campanha considerada a mais rica da história das eleições estadunidense, onde mesclou contribuições massiva de agentes econômicos tradicionais e uma inteligente arrecadação via meios eletrônicos voltados para o "eleitor comum" com contribuições modestas a partir de 5 dólares por simpatizante (uma espécie da global "Criança Esperança" brasileiro para engordar o caixa eleitoral de Obama).


Todavia, os dois maiores cabos eleitorais de Obama foram o desgaste da herança desastrosa do imperialismo fascista do Partido Republicano, na figura do patético George W. Bush, e a histórica crise financeira que se estourou com a mega-bolha especulativa de Wall Street em plena campanha eleitoral e está não apenas levando os Estados Unidos à recessão, como parte significativa do mundo à reboque. A eleição do "crash" transformou a figura de Obama como o novo messias do stabilishment estadunidense e alavancado como um predestinado "líder mundial". A crise financeira estadunidense de 2008, iniciada pela bola especulativa dos mercados imobiliários, passou da esfera da cafetinagem dos lucros fáceis da economia via bolsas de valores à economia real. O desespero tomou conta dos mercados mundiais, devastando empresas e desemprego em diversos países do mundo do "capitalismo maduro" e que derreteu trilhões de dólares em poucos dias. A hecatombe econômica que deixou os Estados Unidos à beira do colapso em 2008, em magnitude, somente é comparável apenas ao "crash" da bolsa estadunidense de 1929 e, na ocasião, representou um marco na história mundial e implementação de políticas de intervencionismo estatal no capitalismo sem freio do início do século XX. O fim da irresponsável retórica neoliberal de deixar a promíscua "mão invisível" atuar no mercado foi deixada de lado e a cartilha keynesiana foi tirada do fundo do armário e buscou-se uma retomada da estatização de grande parte do setor financeiro através da forte intervenção do Estado. A "socialização" das perdas da ciranda especulativa através do dinheiro do contribuinte criou-se muita celeuma dentro dos Estados Unidos a ponto do governo Bush ter muita dificuldade de emplacar seus generosos pacotes de ajuda financeira aos especuladores falidos.


Neste rastro de destroçamento econômico estadunidense, nem mesmo o enraizado preconceito dos estadunidenses impediram de eleger o primeiro negro à sucessão de um país com profundas chagas de conflito aberto racial. Por sua vez, visando não perder eleitorado e apoio de demais grupos éticos, Obama procurou minimizar o fato de ser um "candidato negro" e se postulou como um "candidato de todos da América". Para Simon Jenkis, do jornal inglês "The Guardian", a vitória de Obama simboliza o fim da supremacia "wasp" (a elite americana branca protestante) nos Estados Unidos, onde a cor da pele ainda representa forte peso eleitoral. O carisma midiático de Obama cruzaram o Atlântico e o Pacífico, e a "obamania" varou o mundo cada vez mais anti-estadunidense. "O motivo de sua candidatura ter incomodado muitos americanos é o motivo pelo qual o mundo ficou eletrizado por ela: Obama é meta-americano", salientou Jenkis em seu artigo para o periódico inglês ressaltando a simbologia de Obama.


A cruzada fascista de Bush e nome da "guerra contra o terror", a invasão do Iraque e o patinação das tropas estadunidense no Afeganistão perderam fôlego dentro da campanha presidencial de Obama e Mccain em virtude dos estadunidense estarem muito mais preocupados com os destroços da crise econômica interna e não perderem seus próprios empregos. É importante salientar o fim do estado de bem-estar social implantado pelo New Deal patrocinado pela administração de Franklin D. Roosevelt, a partir do início dos anos 1930 e vem sendo paulatinamente erodido nos Estados Unidos por anos de aplicação de um neoliberalismo explícito, diminuição da participação do Estado dentro da esfera social e amplição da concentração de renda dentre as camadas mais ricas da população (24% das riquezas estadunidense estão na mão de apenas 1% da população). Sem uma política pública de saúde, o custoso sistema de saúde privado é uma das maiores queixas dentre as classes médias e pobres estadunidenses. Este esfacelamento do estado de bem-estar estadunidense são práticas desenroladas desde as políticas republicanas da Era conservadora representada pela gestão de Ronald Reagan, início do anos 1980, e se prolongando até agora, os anos neoconservadores de Bush filho.


Obama é o arquétipo do "sonho americano" no coração da América, ou seja, a retórica da mobilidade de classes dentro das economias desenvolvidas. Obama promete o resgate do padrão de vida das famílias estadunidense via diminuição dos impostos do contribuinte. Será? Como mote de campanha, é afrodisíaca uma redução de até 90% da carga de impostos diretos das famílias estadunidenses! Todavia, a realidade será bem outra. Os Estados Unidos não vão abrir mão de serem a "polícia do mundo" e o gerenciamento do império não é nada barato. Para cada 1 dólar gasto em impostos, 40 centavos vão para os cofres militares. Trocando em miúdos, cerca de 40% do orçamento do país é para sustentar o maior complexo militar do planeta e posto de unipotência imperial bélico do planeta. No total dos orçamentos militares de todos os países do mundo, 45% são derivados dos gastos estadunidenses. Obama já declarou que não vai mexer no orçamento militar nos primeiros anos de seu governo. Portanto, é será difícil acreditar em redução de impostos, que impactará diretamente na arrecadação a ponto de comprometer o orçamento militar e certamente decepcionará muita gente que acredita que Obama diminuirá o fetiche imperialista estadunidense pelo mundo. Não há indícios ainda que Obama irá abrir mão do keynesianismo militar para buscar alavancar parte da economia interna derretida pela farra dos especuladores de Wall Street.


"Sim, nós podemos!", retórica repetida à exaustão na campanha de Obama. Cabe ao candidato passar de uma messiânica figura política na difícil superação e unificação do voto "negro" e "branco". A simbologia do Obama, um afro-americano bem-educado e sucedido ("quase um verdadeiro branco estadunidense!") poderá inicialmente trazer muita euforia e sensação de "mudança" nas posições estadunidense pelo mundo. A realidade o pragmatismo poderá reinar na futura administração Obama. É importante ainda salientar que não há caminhos para ilusões: Obama não governará sozinho ou apenas com alguns seletos assessores. Na intricada rigidez da administração do império, Obama poderá ser mais um refém das sólidas e conservadores estruturas de dominação dentro da arquitetura de poder nos Estados Unidos.


O que chama mais atenção é o momento histórico de resgate da identidade estadunidense Pós-Wall Street. No emblemático discurso de vitória em Chicago, na noite de ontem, dia 04 de novembro (horário local), Obama representou irradiante esta figura arquetípica de "esperança do sonho americano" para milhares de estadunidense. Somente num futuro próximo dirá se a onda da obamania virará (ou não) uma nostálgica maré. Para o restante do planeta que deverá estar com o olhar atento no retrovisor da história, o pragmatismo ainda é a melhor caminho para as relações políticas com Washington, sem prematuramente mergulhar de cabeça em fortuitas promessas de ondas multirraciais e pan-americanismos eleitorais com largo sorriso.




Escrito por Wellington Fontes Menezes às 10h14
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O novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa


De todos os acordos e reformas necessárias para a sociedade brasileira, uma das mais controvertida delas é a nova reforma ortográfica da Língua Portuguesa. A partir de 2009, já começa a vigorar o novo modelo ortográfico nos países lusófonos composto majoritariamente por Portugal e Brasil, além das ex-colônias portuguesas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste e se constituem na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).


Para muito dos entusiastas da novas regras é a possibilidade de uma unificação das duas “línguas portuguesas” entre Portugal e Brasil. Aliás, a língua portuguesa é a única que existe dois cânones ortográficos oficiais, a “européia” e a “brasileira”. A mudança na prática não afeta além de 2% das palavras da língua portuguesa. Porém o impacto nos dois países majoritários serão diferentes. As alterações serão muito maiores na ortografia da língua em Portugal e, por sua vez, causou muita celeuma entre muitos portugueses em referendar o novo acordo.


Um dos aspectos que merece ser um interessante ponto de reflexão na nova ortografia é o reingresso das letras “k”, “y” e “w” passando então para 26 letras do alfabeto oficial. Dessa maneira, dará “oficialmente”mais vazão aos estrangeirismos que reinam impunemente na língua portuguesa via colonização cultural “Made in USA” (um dos aspectos mais nefastos da globalização cultural via imposição econômica).


A rigor, a mudança veio mais para ganhar uma dor-de-cabeça adicional do que algo que possa ter alguma utilidade mais prática para os usuários regulares da escrita da língua. Aos profissionais que precisam trabalhar com a língua escrita, é bom ficarem atento. Segundo o Ministério da Educação (MEC), haverá um período de transição entre 2009 e 2011 (ou seja, permitindo as duas grafias como corretas) para todas as adaptações possíveis da ortografia, incluindo editoras, currículos escolares, vestibulares, concursos públicos e demais recursos usuários da língua de Machado, Camões e Pessoa.


A Editora Ática e a Editora Abril disponibilizou um manual que sintetiza as novas regras e poderá ser acessado no endereço: http://www.atica.com.br/novaortografia/index_.htm


ou se desejar, fazer download (olha o grafia!) do conteúdo no endereço: http://www.atica.com.br/novaortografia/manual_nova_ortografia.pdf [Tamanho ~ 2,7Mb]

Disponibilizei também  blog acesso para fazer download clicando AQUI.

Bem, são estas as regras momentaneamente de “nossa” língua portuguesa até que se resolvam mudar tudo novamente... Uma pergunta cabe ainda para ficar planando no ar: quem realmente ganha com tudo isto?

 



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 06h35
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O Miojo Eleitoral: a Política como Mercadoria

Um dos bordões mais citado nas esdrúxulas campanhas eleitorais e cobertura jornalística pelos diferentes canais de mídia é a patética associação entre eleição para prefeito e síndico. Como se fosse farinhas políticas do mesmo saco de maldades, este tipo de análise esterilizada da política passa para o desatento "cidadão" que seu título de leitor serve para eleger o síndico de plantão. A TV Globo através do seu Jornal Nacional chegou até mesmo fazer uma série de reportagens buscando falsamente comparar as eleições para prefeito deste ano à de um síndico de algum prédio de meia-dúzia de condôminos. Aliás, mote excelente para os candidatos a rapinagem ou usurpação do erário público se metamorfosear em suas falácias eleitoreiras sem a menor preocupação da construção política que o cargo de prefeito deveria exigir de fato.


Outro fato que já vem sendo um lugar-comum é a mesmice pirotécnica do milionário marketing eleitoral. Não faz muita diferença comprar um sabão em pó ou votar num candidato à algum cargo público: a propaganda mercadológica é a mesma. Tudo é tão cretinamente clonado que parece difícil distinguir quem é esquerda ou direita no espectro político. Sim, não vamos cair nas lorotas neoliberais que o fim das fronteiras ideológicas acabou e agora tudo se passa por um "novo horizonte político"... As premissas ideológicas neoliberais são tão consistentes quanto o derretimento das bolsas de valores pelo mundo à fora com selo "Made in USA". Bobagens demagógicas à parte, o caso das eleições paulistas é emblemático.


Marta Suplicy e Gilberto Kassab travam um embate de números bem ao estilo das campanhas do "rouba-mas-faz" de Paulo Maluf: os macro-números das idílicas promessas. Ambos prometem uma quantidade infinitesimal de obras e serviços desconexos da realidade e numa competição em busca do Santo Graal do altruísmo paulistano. O confronto se acirra quando se é para ver quem “já fez mais por São Paulo”. Ótimo para o “síndico” Kassab e péssimo para o Partido dos Trabalhadores (PT) de Marta entrar neste estúpido jogo folclórico a la Maluf. Gilberto Kassab dos Democratas (DEMO), atual sigla do latifundiário partido de coronéis do antigo Partido da Frente Liberal (PFL) e extensão do braço político que apoiou o regime militar, é uma daquelas raposas políticas que adere a qualquer coisa para se manter no poder. Nestas eleições, Kassab se esforça para posar a todo o momento de Virgem Santa Imaculada, mas dissimula que trabalhou para Paulo Maluf e seu antigo boneco político, o desastroso ex-prefeito Celso Pitta. A votação do atual prefeito Kassab, além de usar a máquina pública para fazer sua propaganda pessoal, sua extensa votação conquistada no primeiro turno das eleições e nas favoráveis pesquisas eleitorais do segundo turno só esta sendo possível devido a sede incontrolável de poder do governador José Serra que além de sabotar a campanha do tucano Geraldo Alkimin de sua legenda partidária, apoiou Kassab ainda no primeiro turno. O governador, como sempre, bem ao estilo tucano, faz uma coisa de depois nega que fez ou vice-versa. Vale também lembrar que o arrogante e camicase conservadorismo típico da classe média paulistana é um peso considerável na desequilíbrio da balança.


Kassab, um desses parasitas de gabinete que destila o puxa-saquismo político para sobreviver e reproduzir assexuadamente. Ancorado na lascívia eleitoral de Serra, deu as costas para seu antigo padrinho político, Paulo Maluf, e caiu na plumagem dos tucanos. A eleição para prefeito de Serra, em 2004 (alguém se lembra?) foi apenas um trampolim para chegar ao governo do Estado e alavancar sua candidatura ao Palácio do Planalto em 2010. Unidos no plano nacional desde o primeiro governo de Fernando Henrique e amplamente aderente no governo de São Paulo desde Mário Covas, PSDB e Frente Liberal, vale lembrar que existiu até um mal-estar inicial na aliança paulistana entre tucanos e PFL na campanha de 2004 em torno no nome de Gilberto Kassab como vice-prefeito na chapa do então candidato José Serra. Porém, como tudo na política do toma-lá-dá-cá, as coisas se assentaram e nada que uma bela e farta distribuição de cargos e benesses não agradassem as famélicas partes descontentes. É mais do que interessante para Serra a vitória do seu atual boneco de ventrículo, Kassab, uma vez que o PSDB se manterá na unificação tucana do poder em São Paulo e pavimentando com mais vigor a estrada do imenso ego do governador para pousar em Brasília em 2010.


Já o PT de Marta com uma campanha recheada de efeitos mercadológicos e pirotécnicos contribuiu para a campanha do seu adversário. Pouco adiantou a ilustração do presidente Lula na campanha de Marta. Kassab, tal como um sabonete, é um produto do marketing político e ponto final. Quando o PT transforma sua candidata numa garota propaganda do Bom-Bril político das mil e uma utilidades, cai na vala-comum qualquer diferença entre a política necessária para uma cidade e os devaneios sensacionalistas desembrulhados nas cabeças dos marqueteiros de plantão.


Na democracia de representação do capital, o poder financeiro é fundamental para a eleição de seus candidatos. Os nomes não surgem apenas por acaso como brotam chuchu entre a cerca do quintal (sem fazer alusões ao apelido do enjeitado tucano, Geraldo Alkimin). Na esfera da política como mercadoria, praticamente não é interessante discutir as abissais construções da desigualdade que reina absoluta numa cidade como São Paulo. Entre um clique do fotógrafo e uma peça publicitária, é melhor pavimentar com uma fina casca de asfalto uma rua sem esgoto encanado, beijar uma criança desnutrida e pousar com largo sorriso para os holofotes da televisão do que realmente tocar nas atávicas estruturas socioeconômicas da crueldade urbana.


Nas eleições paulistanas, a mesmice estéril continua a germinar a todo vapor na votação do novo “síndico”. Chegam-se ao absurdo dos candidatos brigarem pela paternidade da mesma promessa eleitoreira. E na esteira do teatro dos absurdos, entre tantas de suas demagogias, o prefeito Kassab apareceu em público e depois virou jingle de campanha, a “promessa” que jura aos quatro ventos que a passagem de ônibus não irá subir em 2009! Todavia, oculta da população o quanto irá disponibilizar dos generosos subsídios para alimentar as quadrilhas organizadas que tomou conta do sistema de transporte público da cidade.


A política mais uma vez se torna vítima da sede insaciável pelo poder a qualquer custo e dá vazão para a construção mercadológica quando as necessidades públicas são produtos para consumo individualizado, imediato e descartável. Resta então ao eleitor desatento, colocar o miojo eleitoral na urna com cara de freezer, marcar quatro anos e apertar o botão. E procurar então ficar esperando bem acomodado na cadeira...



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 08h51
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Medicamento como bem público universal

 

Para o caso da apropriação do conhecimento via patentes de medicamentos é a base de estudos para minha dissertação de mestrado. É inadmissível tanto moral quanto eticamente pacientes que necessitem de medicamentos não ter acesso ou interromperem seus tratamentos devido sua frágil condição econômica. Muitas vezes, em casos que requerem mais cuidados, o simples fato de pacientes não terem rendimentos suficientes para ter acesso a medicamentos é o suficiente para condenarem tais pessoas à morte em nome dos astronômicos lucros gananciosos das empresas transnacionais farmacêuticas. É fundamental compreender que o conhecimento gerado e cerceado para a produção de medicamentos deverá ser tratado como bem público universal. Defendo uma mudança global da produção de medicamentos  que deverá estar sob tutela da Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com nações e as indústrias nacionais e transnacionais farmacêuticas com o intuito de trocas de tecnologia para pesquisa, desenvolvimento e ampliação do acesso aos fármacos. É importante ressaltar que um grande número de doenças “negligenciadas” que assolam a maior parte dos países do Terceiro Mundo ou simplesmente são esquecidas nas pesquisas científicas pelas multimilionárias transnacionais que investem maciçamente somente em doenças cujos remédios são “comercializáveis” por nações mais ricas. Simplesmente, para as empresas transnacionais farmacêuticas, não há interesses em estudar “doenças de pobre” com mais afinco, uma vez que os retornos financeiros para estas empresas são duvidosos ou insuficientes para a sua voracidade por lucros.

 

O que fazer diante de uma epidemia globalizada e medicamentos transformados em meras mercadorias para quem possa ter recursos para comprá-los? Segundo o relatório divulgado neste ano da Unaids, o programa da ONU para a AIDS, diz que o número total de novos casos registrados globalmente caiu de 3 milhões, em 2001, para 2,7 milhões, em 2007. Embora a porcentagem de novas pessoas infectadas globalmente tenha caído, o número total de pessoas vivendo com o vírus da Aids subiu para 33 milhões (com uma média de 7,5 mil pessoas sendo infectadas a cada dia). No continente africano, embora tenha havido uma redução no número total de mortes por Aids no mundo (de 2,2 milhões para 2 milhões), a doença continua sendo a principal causa de morte no continente, onde vivem 67% de todos os portadores do vírus HIV do mundo. Em relação ao Brasil, o relatório diz que, apesar de o país ter cerca de 730 mil pessoas vivendo com o HIV, o que representa mais de 40% das pessoas infectadas na América Latina, a política de garantir acesso a métodos de prevenção e tratamento tem ajudado a manter a epidemia estável no país (vale lembrar que o governo brasileiro tem um programa-modelo de distribuição gratuita de medicamentos para os casos de AIDS). A escassez de medicamentos afeta também o tratamento de doenças de conhecida cura para a medicina ainda perfilam óbitos desnecessários. Por exemplo, o caso da malária que uma “doença de pobre” é um flagelo em regiões tropicais e subtropicais do planeta com mais de 1 milhão de mortos por ano  (a maioria dos casos e das mortes ocorre na África subsaariana, onde morre uma criança com menos de 5 anos a cada 30 segundos). Segundo o Ministério da Saúde, somente na região amazônica no Brasil, em 2006 foram mais de 540 mil notificações da doença.

 

A Economia deverá ser o estudo para a busca permanente da distribuição com eqüidade dos bens escassos e não ser palidamente uma “ciência” vassala do poder de um punhado de capitalistas. O conhecimento não deverá ser uma mercadoria, além da necessidade de ser pautado pela dignidade e premissas democráticas em prol do bem-estar da humanidade.  Mais uma vez, ressalto a importância transformadora e revolucionária cuja base é adoção mundial dos medicamentos como bem público universal sem restringir a mera condição econômica do ser humano.  A produção de conhecimento não deverá ser cerceada pelo capital para amenizar a ânsia incomensurável pelos lucros em detrimento do sofrimento e a dor angustiada de milhões de vítimas ao redor do planeta. Como é possível tamanho barulho pelos “ecologismos”, a retórica do “desenvolvimento sustentável” de questionável altruísmo e a cretinice pasteurizada da “responsabilidade social” sem ao menos que grande parte nossos doentes tenham o mínimo de acesso às condições mínimas de sobrevivência?

 

Antes de orar pelos mortos e lamentar suas perdas “inevitáveis”, não seria oportuno dar a eles uma chance para que possam sobreviver?  O medicamento não deve ser tratado como mera mercadoria mercantil, mas fundamentalmente um bem público universal. É preciso pensar a construir efetivamente uma socialização da distribuição e acesso de medicamentos em escala global a todos de deles necessitem independente de sua condição econômica. Além de promover a democratização do conhecimento científico na produção regional e local de medicamentos sem acarretar mais vítimas inocentes vampirizadas pelo monopólio capitalista de empresas transnacionais.

 

Ainda é necessário renunciar as coleiras internacionais dos acordos comerciais das grandes potências que impedem sorrateiramente ao acesso à tecnologia, desenvolvimento e produção de medicamentos aos países menos desenvolvidos (como é o caso do acordo sobre propriedade intelectual, a TRIPS, ou Acordo sobre Aspectos da Propriedade Intelectual Relativos ao Comércio, na sigla em inglês). Hoje, a humanidade por meio de seus pesquisadores e técnicos, adquiriu conhecimento científico e tecnológico, além de possibilidades reais de ampliar a produção de medicamentos a fim de atender a demanda necessária e evitar mais tragédias humanitárias. É notório que investimentos para laboratórios e corpo técnico especializado demandam altos recursos, porém é urgente socializar o conhecimento tendo em vista a busca incansável de salvaguardar vidas. Os governos locais, principalmente dos países mais pobres, poderão ter acesso às tecnologias para investir em laboratórios nacionais de produção de medicamentos e assim reduzir drasticamente o alto custo dos insumos além de baratear o preço final. Também é possível projetar redes supranacionais regionais de laboratórios, ou seja, envolvendo mais de um país (parecerias estratégicas) em regiões de grandes bolsões de pobreza ou miséria endêmica na América Latina, África e região asiática.

 

A vida e a dignidade humana sempre serão muito mais importantes que a mediocridade visceral de alguns na busca do lucro desmesurado à custa da exploração alheia. Que tipo de “civilização” desejamos realmente? O lucro ou a barbárie. Cabe a todos nós definirmos nossas escolhas antes de sepultarmos em vida nossos mortos.  



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 06h46
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Uma tragédia sentida

 

 

Para quem acompanha alguns dos meus escritos, hoje destoarei dos textos usuais disponíveis nos blogues. O motivo é válido e merece ser registrado. Uma pausa para a reflexão sobre a morte a partir de uma tragédia sentida com uma força e intensidade entristecedora.

 

 

Na escola pública onde leciono (ou pelo menos tento lecionar diante do caos...) há dois professores efetivos de Física, o escrevinhador destas linhas e um professor que há mais de 25 anos permanece na mesma unidade escolar e morador do bairro. Temos um bom contato profissional e com grande tranqüilidade, e como é natural com as pessoas que tem certa identidade própria, permanecendo sem atrito nossas diferenças particulares e respeito mútuo. Um bom sujeito, bastante voluntarioso na escola e do tipo que a sociedade busca pregar o molde sintético de “bom marido, bom pai” etcetera e tal. O longo de mais de três anos da minha efetivação no cargo e lotação na escola, em contato com Ele, a conversa girava em alguns formalismos das aulas e expectativa dele com a aposentadoria, alguns planos para o seu futuro familiar e, como na maioria dos pais, procurando construir ou projetar seus sonhos não concretizados no semblante do seu filho.

 

 

A vida muitas vezes beira entre a ironia e a tragédia.  No início da tarde desta quinta-feira, mais um dia tedioso na escola e sabendo as novas besteiras demagógicas da Secretaria de Educação, o ânimo não tinha como melhorar. Já quase terminando meu horário de trabalho e acabei por encontrá-lo no corredor na rota da sala da diretora. Conversamos rapidamente alguma coisa vaga. E assim me despedi dele e foi à última pessoa com quem conversei na escola neste dia. Passado a tarde e adentrando a noite, recebi um telefonema da secretária da escola dizendo que as aulas estariam suspensas devido a uma notícia inusitadamente trágica. A esposa e o filho deste amigo professor tinham sido atropelados por um caminhão desgovernado! A esposa faleceu no local do acidente e o filho tinha sido levado em estado grave para um hospital da região. Até o momento, não tenho notícias do estado de saúde do garoto.

 

 

Todo o sentimento de perplexidade é ainda pouco quando nos deparamos com tragédias tão intimamente ligadas ao nosso cotidiano. Quando se conhece os atores e o cenário perece muito mais vivo e dramaticamente mais acinzentado. Naturalmente, nenhuma tragédia pode ser mensurada de forma sistemática e com níveis de intensidade. Toda tragédia é uma tragédia e suas conseqüências são igualmente trágicas. Porém, a intensidade da latente dor se torna mais pulsante quando o terreno é conhecido. E isto realmente tem um peso considerável!

 

 

Qual a dimensão da tragédia para um ser humano quando subitamente seus entes queridos são visceralmente atingidos de forma tão estúpida e brutal? Não tenho palavras e não tenho a pretensão de dimensionar o entorpecer de uma catástrofe unipessoal. Uma imensa dor não caberia nem mesmo ser transcritos nas páginas volumosas de uma Bíblia.  Em segundos, todos os sonhos, projetos e trabalho de uma vida são pulverizados. Qual o sentido da vida? – permanece em aberto uma das questões mais perturbadoras de nossa existência. Talvez nunca tenhamos uma resposta definitiva. Porém, é possível que dentro de cada um de nós encontre sua resposta pessoal e que congrace seus desejos.

 

 

Criamos e desunimos, cortamos e colamos, sonhamos e desfazemos, pintamos e borramos, construímos e diluímos, sorrimos e pranteamos. Tantas agruras na vida angustiada e tantos caminhos inverossímeis, como é o caso de morar numa cidade como São Paulo. Um cotidiano aflitivo, agonístico e nauseante onde parece muito mais uma guerra de todos contra todos do que uma comunidade de seres humanos. E de repente, todos os egoísmos, narcisismos, auto-suficiências e inimizades são tão pífios e paupérrimos diante do inusitado sentido da morte. Quanta vida deixou-se de vivida para adentrar num momento de trevas e prantos? Quem ganha com a guerra se a Paz é o maior dos bens pessoais e coletivos? É preciso acordar e viver!

 

Talvez uma das características pertinentes do inconsciente coletivo ocidental é a nossa visão diante da inevitabilidade morte. É provável que algumas religiões orientais, destacando aqui o budismo com sua visão holística do mundo, tenham um melhor entendimento da “arte de morrer” e cujo sofrimento seja entendido de forma transitória e atenuado. Porém, para nós ocidentais, o forte apego ao materialismo atávico nos fragiliza com mais intensidade e reverbera o desespero diante da morte. Aliás, a angústia maior não está no fato de morte em si, mas quando deixarmos de viver e instalar a saudade das pessoas e desejos queridos.  Paradoxalmente, a morte nunca é o fim, mas o meio o qual se perpetua uma imagem na retina das pessoas afetivas.

 

 

Diante do espelho, não apenas vemos essa imagem de nós mesmos, mas o que nos constituímos ao longo dos anos: nossos atos, ações, alegrias e tristezas. Nosso passado, sonhos, conquistas, família, desejos e amores fazem parte simbolicamente da imagem projetada no espelho. Não somos uma ilha, por mais que a auto-suficiência possa desejar o ostracismo, deixamos de existir quando o que está em nossa volta também não existe. A imagem fixa, a linguagem castra e a vida segue pulsando de uma maneira ou de outra... Para a psicanálise freudiana, a pulsão é a energia que move nossas ações e coexistimos com a dualidade entre “pulsão de vida” e “pulsão de morte”. Qualquer tipo de perda negativa fomenta a propensão à cultivarmos a “pulsão de morte”. Quando perdemos pessoas muito queridas, perdemos (nem que seja momentâneo) nosso horizonte de vida e trilha a ser peregrinada. A “pulsão de vida” é essencial para continuarmos a respirar em ar rarefeito.

 

 

A morte é o vazio. Uma tragédia é o calabouço do vazio. A fração entre viver e não viver é tão infinitesimal como um piscar de olhos. Matamos uns aos outros ou destruímos as pessoas com um sadismo irretocável. Grana, ganância, estupidez ou insanidade: no limite da mediocridade humana, a vida vale muito menos que a morte. A vida nos grandes centros urbanos vale cada vez menos. Entre culpados e inocentes, ninguém escapa do mesmo destino final. Num mundo cada vez mais materialista, viver, matar ou morrer são apenas conjunturas desconectadas e insaciadas. Porém, diante de uma tragédia como a relatada aqui, a sensação é de total desertificação dos sentidos.

 

 

A angústia dilacera todas nossas precárias certezas. Aliás, a precariedade e a fragilidade são constituintes básicos dos significados e dos significantes humanos. Pela minha formação inicial acadêmica, não sou adepto a nenhuma religião, mas acredito no potencial religioso perante uma comunidade ou mesmo para um indivíduo. Um dos objetivos primazes da religiosidade é atenuar as agruras dos tempos apaziguando a alma. Podemos acreditar ou não em alguma religião, seja qual for sua crença, todavia diante da natureza inexorável da ceifadoras de vidas, a vida ressurge como o maior de todos os bens sobre a natureza. Cada vida é importante e cada ser humano deverá ser respeitado.

 

 

Não encontro palavras que possam consolar o amigo professor. Não há mágica que possa ser tão transformadora e transporta-lo da imediata crueldade da vida mundana para um idílico Paraíso sem dor. Nestas horas tão inexatas, não questionamos a existência de uma natureza suprema, um Deus maior, mas simplesmente procuramos ansiosamente acreditar no cessar desta dor que impregna todas as vértebras e, mesmo na distância possa nos aproximar de quem guarda no cerne da alma valores relativos ao amor, angústia e saudade. Seja neste plano terreno ou em algum mítico Paraíso. 

 

 

Que o caminho da desolação seja pavimentado com a tutela necessária de conforto e Paz levados até a profundidade da alma.  Deixo então registrado aqui meu profundo pesar, lamento e solidariedade.     

 



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 07h57
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Estrangeiro no meu próprio país: cenas de subserviência calhorda ou turismo acadêmico inútil?

Para que(m) serve(m) os congressos acadêmicos? Em tese, para o fomento do debate democrático, crítico e atualização dos mais diferentes níveis de informações e dados. Todavia, na minha avaliação, não foi a preocupação destas premissas que foi levada em conta no Regional Science Association International (RSAI) World Congress 2008, realizado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) entre os dias 17 e 19 de março. Um congresso cujo enfoque básico se assentava nos estudos econômicos regionais.

Fiz todos os trâmites normais pedido pela organização do evento e paguei a taxa de inscrição. No dia 18/03, cheguei ao local do evento para formalizar minha inscrição e pegar o crachá. Fui logo recebido por um sorridente "Hi!" da atendente com jeito e esboço do mote "faça o seu pedido" de uma conhecida cadeia de hambúrgueres transnacional. Após ter resolvido o problema a respeito do meu pagamento da inscrição (grande preocupação por parte dos organizadores!), recebi meu material. Destaco que o mais curioso foi a "caneta ecológica" feita de material reciclável e a sacola com "tecido ecológico" (a ostentação da hipocrisia do "ecologicamente correto")! Percebi que todo o material impresso estava em inglês sem direito a nenhuma outra linha em português ou qualquer outro idioma. Perguntei a respeito do excesso de estrangeirismo dos livretos para uma moça do pessoal de apoio do evento e fui informado que tudo foi impresso e organizado na língua inglesa uma vez que o evento é "internacional"(!). Argumentei que para qualquer evento de porte "internacional" e com algum respeito trabalharia com duas línguas, uma nativa e outro idioma (que poderia ser eventualmente o inglês). Nada adiantou. Naquele momento, estava mais preocupado com a apresentação do meu trabalho que iria começar em menos de uma hora e resolvi ignorar o fato por alguns instantes. Péssima opção! Prova de que quando aceitamos passivamente a boçalidade o preço posterior sempre será muito alto.

Ao aproximar da sala onde seria minha exposição, fiquei sabendo que somente a língua inglesa poderia ser utilizada. Neste momento, como diz a expressão popular, "caiu a ficha"! De primeira mão, achei que era uma predileção arrogante por parte dos organizadores. Mesmo ainda insistindo em fazer a apresentação em português, fui informado novamente que de fato era imposição o inglês por ser um evento "internacional". Detalhe: não haveria nenhuma forma de tradução. Fiquei perplexo e surpreso com o fato, afinal de contas por mais internacional que seja o evento, estava no meu país da língua de Camões (apesar de nossos milhares de analfabetos)! Argumentei sobre a inverossimilhança da situação para alguns membros da equipe de apoio e todos diziam que somente o inglês era aceito para as apresentações. Indignado, fui levado até o professor que chefiava a organização do evento (que prefiro não citar o nome) e expliquei ao mesmo a situação. Ele com um ar de Pilatos, disse que "as pessoas que participam do evento pagaram para assistir as apresentações em inglês e que isto não seria alterado" e que ele "não poderia fazer nada" (Pensei: FEA-USP Turismo & Cia.?). Cada estrangeiro desembolsou para pagar a inscrição do congresso um valor de 300 euros (!) conforme informações do próprio site oficial do evento. E com sorriso quase de deboche recomendou "faça o que achar que pode"! Uma das promotoras do evento que estava ao nosso lado recomendou que eu "improvisasse" o inglês. Argumentei que não seria possível, uma vez que meu inglês estava mais próximo do ursinho "To Be" e que seria totalmente diferente preparar uma apresentação em português e imediatamente passar para o inglês em questão de minutos (eu não teria esta pirotecnia momentânea!). O mais curioso é que foi justificado pelo fato de não ter nenhuma forma de tradução: "sairia muito caro"!

Para tentar persuadir-me (e me fazer com que eu me sinta um verdadeiro otário diante do meu analfabetismo cultural!), fui informado que fato semelhante ocorreu com alguns outros participantes brasileiros do evento, mas alguns deles "deram um jeitinho" ou "decoraram o texto". Trocando em miúdos, o que queriam dizer de forma mais educada era que eu era o único "chato" do congresso preocupado com questões tão "tolas"! Para variar, havia argumentado que para um evento internacional era fundamental ter algum tipo de tradutor tal como qualquer evento do gênero. Inútil! Naquele momento me senti em estrangeiro no meu próprio país e proibindo de expressar em minha própria língua materna. Diante dos acontecimentos decidi não apresentar meu trabalho e desisti de participar do evento. Uma das assessoras de comunicação disse que compreendia o meu caso e que passe posteriormente no local de inscrição do evento para pegar o certificado uma vez que eu já tinha pago e tudo estava registrado meu trabalho nos livretos e anais do congressos. A sensação era de um enorme nariz vermelho sobre meu rosto bem ao estilo persona non grata!

Vale destacar a apresentação "cultural" escolhida para os participantes estrangeiros no congresso: a capoeira (manifestação bem típica da capital paulista!). Perguntei se não teria escola de samba com mulheres semi-nuas ou coral de criancinhas pobres de alguma favela das redondezas. Nada era mais caricatural e patético o reforço dos estereótipos preconceituosos da identidade brasileira: mulher (leia-se prostituição), futebol, violência, floresta amazônica e seus indígenas. A fauna cultural brasileira para exportação! Interessante frisar que o mote do congresso não era para ser uma exposição de negócios ou coisas similares, mas um evento acadêmico! (Nunca é demais salientar que nada tenho contra a capoeira e outras manifestações culturais, porém sou contra os reforços ideológicos impregnados de preconceitos e subserviência.)

Para quem conhece um pouco dos corredores da FEA-USP, não é de estranhar o altivo tom imperativo do amor canal com os modelos estadunidenses impregnado de forte ideologia neoliberal. Não retrato um grupo de interesses qualquer dentro da sociedade, mas estou me referindo a uma elite bem-educada e culturalmente bem estruturada e que ajuda a dar as rédeas políticas e econômicas para o restante do país. A questão de qualquer congresso internacional ser falado em um idioma estrangeiro não é nenhuma novidade ou representar algum tipo de problema. Todavia a obrigatoriedade do uso exclusivo de uma língua que não seja a língua nativa onde se realiza o evento é assustadoramente preocupante. As cores ideológicas se avivam neste momento e todas as pessoas de uma hora para outra se tornam falantes (naturais ou não) da língua inglesa em território cuja língua oficial é outra!

"A língua é minha pátria", já "cantaneava" Caetano Veloso num dos versos de uma de suas canções. As implicações deste fato estão longe de velejarem nas ondas da trivialidade. Qual malefício teria se todos falarem o inglês em terras tupiniquins nos eventos acadêmicos (tendo em vista o ocorrido)? Muitos. A primeiro deles é o descolamento do sentido de nacionalidade. Será que somos nacionalistas apenas nos jogos da seleção brasileira de futebol e quando algum brasileiro é barrado nos aeroportos do chamado Primeiro Mundo? A imposição sistemática do inglês é o castiçal da ideologia neoliberal dominante que prega a globalização com cores do imperialismo cultural estadunidense. Nada é um mero jogo de "cordialidade" dos afáveis e hospitaleiros brasileiros perante os gringos. Nossas raízes paternalistas, escravocratas, subservientes e cartoriais de nossas elites políticas e econômicas emergem como fantasmas parasitando na história da constituição de nossa sociedade.

Segundo ponto se refere aos rumos da universidade pública. Qual é o modelo de universidade pública que realmente estamos construindo? E a pergunta mais crucial: quais modelos queremos construir para a universidade pública para as próximas décadas? Concentrador e parasitário destinado a uma pequena elite mimetizadora das liturgias imperialistas ou democrática e voltada para o pensamento da construção do que Octávio Ianni chamou de "Brasil-Nação". Quando um evento é patrocinado por uma universidade pública é razoável imaginar que deva ser amplamente aberta a todos os interessados independente de suas particularidades. E o que aconteceu neste evento da RSAI na FEA-USP? Transformou-se num evento privado para um nicho estrangeiro tão reduzido que poucas pessoas não ligadas ao evento perceberam que estava ocorrendo algum tipo de congresso (ainda foi programado justamente no período de recesso das aulas dos estudantes da instituição, ou seja, uma forma de excluí-los de antemão!). O que acredito mover mais a indignação são os eventos que deveriam ser públicos e abertos (tal como não foi o congresso da RSAI) serem ostentados por uma instituição pública nutrida com verbas públicas e que deveria, em tese, se preocupar com a divulgação e dispersão do conhecimento e não segrega-lo sistematicamente.

Terceiro ponto e acredito muito pertinente se refere à questão dos modelos ideológicos impregnados nas universidades. O modelo da FEA-USP é do paraíso telúrico de algum ponto da Suécia ou jardins estadunidenses. Alguém já ouviu falar na "São Paulo of University"? Chegamos ao cúmulo da subserviência tupiniquim ao ler coisas abobalhadas como nome da Universidade de São Paulo traduzida para o inglês, e no evento da RSAI era o que vigorava em todos os cartazes, panfletos e no site oficial do evento. Por sinal, o site do evento, todo redigido na língua inglesa sem nenhuma concessão para outra língua, trazia imagens paradisíacas do Rio de Janeiro induzindo ao visitante das páginas da internet acreditar que São Paulo e Rio de Janeiro possuem os mesmos cenários. Nada contra a capital carioca, todavia é novamente a reafirmação dos estereótipos tão desnecessários para qualquer tipo de evento internacional, principalmente acadêmico. É lamentável que uma das maiores instituições de ensino de Economia da América Latina ao invés de buscar uma identidade particular e de encontro com a realidade brasileira é um mero arquétipo de um modelo impregnado de entulho ideológico do imperialismo cultural estadunidense.

É natural que a produção do saberes não se resume aos prédios e instalações megalomaníacas, mas da capacidade de professores e alunos ser potenciais irradiadores de idéias e conhecimento. Precisamos definir alguns pontos consensuais entre eles é rejeitar o modelo induzido e mimetizador de um estrangeirismo patético e inútil para nossa realidade dentro das universidades brasileiras. Um modelo elitista que pouco colabora para sanear nossas abissais disparidades socioeconômicas. Uma universidade distante da realidade local pouco serve para a sociedade, exceto a manutenção do status quo de uma pequena elite ao custo do erário público. Ao proibir a língua portuguesa num evento dentro de uma universidade pública não é apenas um mero reclame de alguém que se sentiu humilhado perante a situação, mas, sobretudo é o modelo ideológico fascistóide levado a cabo sem nenhuma reflexão crítica ou sequer esteja preocupado com a realidade brasileira (o paradoxo se amplia quando se lembra que justamente o evento trabalhava com as dinâmicas regionais!).

Os sentidos da globalização reinante não é o modelo que privilegia a universalização e promoção do regional, porém é a bota imperialista que esteriliza a diversidade e impõem a colonização cultural com bases estadunidenses como objetivo primaz estendido a todo o globo. Por exemplo, quem definiu a língua inglesa como língua oficial do planeta Terra? Uma coisa é a opção por uma língua ou outra, outro fato completamente diferente é a imposição de uma única língua como o único meio de comunicação perante as pessoas. A minha preocupação em especial são os falsos mitos empurrados goela adentro de milhares de pessoas muito além das fronteiras estadunidenses. A mídia a serviço do grande capital se encarrega alegremente de dispersar na sociedade os entulhos ideológicos em nome da chamada "liberdade de imprensa".

A pasteurização da cultura é tão perigosa e nociva ao desenvolvimento das diversidades regionais. Desta maneira levamos ao limite a idéia do darwinismo cultural, onde as culturas regionais mais frágeis e os modelos de desenvolvimentos locais são canibalizados pelos ditames dos detentores das rédeas da elite dirigente estadunidense e seus parceiros europeus. A colaboração inter-regional é muito frutífera e deverá sempre ser semeada, todavia a aculturação sem questionamentos ou sem resistências apenas sinaliza a eternidade da mediocridade e a dependência socioeconômica e política. Neste aspecto, a FEA-USP nos deu um belo exemplo de como jamais uma instituição com a envergadura de uma universidade pública tão importante situada em um país com disparidades sociais tão trágicas como a brasileira. A FEA-USP se propôs a fazer um papel tão pobre e subserviente aos estéreis estrangeirismos e se afirmar no posto de patrocinador público do turismo acadêmico inútil.

Ser estrangeiro no meu próprio país é uma sensação que alguma coisa muito estranha perambula na cabeça entulhada de modismos e interesses medíocres e mesquinhos. Estes são alguns dos ingredientes de como jamais deve ser construído as bases de uma verdadeira nação independente e soberana.




Escrito por Wellington Fontes Menezes às 07h58
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As vozes do ventríloquo: A pré-fabricação das tensões sul-americanas

 

Se escuchan con fuerza en el sur de nuestro continente las trompetas de la guerra, como consecuencia de los planes genocidas del imperio yanqui. ¡Nada es nuevo! ¡Estaba previsto!

(Fidel Castro Ruz, Granma, Marzo 3 de 2008)

 

No jornal socialista cubano, Granma, as palavras de Fidel Castro soam como prelúdio de tempos sombrios e genocidas com cartas marcadas. A postura de enfrentamento da suposta "guerra ao narcotráfico" na América do Sul criou ao longo dos anos um desarranjo de poderes na minguada estabilidade entre os países que compõem o bloco. O atávico enlace da Colômbia com as políticas belicistas de Washington conduziu a uma política de enfrentamento com os países fronteiriços, Venezuela e Equador. A arquitetura da política sul-americana nunca foi tão simples como prega caoticamente a mídia neoliberal.

 

Existe uma clara disposição das políticas estadunidenses de combater qualquer país que possa fazer oposição ao governo e os interesses econômicos dos Estados Unidos, ou seja, o imperialismo não é apenas uma retórica do saudosismo comunista. Hugo Chavéz com sua diplomacia da bravata é o grande regente da disposição anti-estadunidense na região vêm sendo um canalizador de tensões. Os dólares jorrando fácil da venda de petróleo arregimentam a investida armamentista da Venezuela e amplia a influência de Chavéz na região. Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador são fontes de influência direta da chamada "política bolivariana" de Chavéz. Raramente se viu uma Venezuela tão forte economicamente quanto militarmente e, diga-se de passagem, tão independente politicamente, sem a clássica subserviência. O mérito é das pregações bolivarianas de Chavéz, mas a retórica belicista é boa para a estabilidade regional? A resposta é um lacônico “não”.

 

A bem da verdade, é importante ressaltar o que de fato como se constituíram as recentes políticas empregadas na América do Sul. Após um período de atrelamento cordial das políticas neoliberais provenientes do Consenso de Washington houve uma nova configuração nos arranjos políticos locais no final limiar do século XXI. A chamada "guinada à esquerda", com o neopetismo de Lula, o neoperonismo de Kirchner na Argentina, o bolivarianismo de Chavéz e a subida ao poder dos satélites venezuelanos, o boliviano Morales e o equatoriano Correa, apesar das inúmeras bobagens da mídia neoliberal, emergiram no cenário sulamericano como respostas às políticas conservadoras e neoliberais das velhas elites locais. Os casos de Brasil e Argentina são mais emblemáticos e merecem uma atenção maior para seus desdobramentos políticos. Tal como os últimos presidentes estadunidenses, é importante ressaltar que Hugo Chavéz não foi um produto da mídia, mas das necessidades e inquietações políticas do momento político do seu país. Em poucos anos, a Venezuela se tornou um paradigma no contexto das políticas da América do Sul. Todavia não é uma nova Cuba e nem Chavéz o esboço de um novo Fidel. A OPEP com sua política vigorosa de ampliação dos preços dos barris de petróleo é o maior fiel depositário do enriquecimento venezuelano e do messianismo de Chávez.

 

A recente invasão de tropas colombianas em território equatoriano é uma prova robusta que os Estados Unidos fazem uma contabilidade muito oportuna. Se por um lado, Álvaro Uribe almeja conquistar votos nas próximas eleições colombianas e influência política com sua política mimetizada de "tolerância zero” ao estilo do midiático Rudolf Guliani, ex-prefeito de Nova Iorque. Por outro lado, é uma nova ofensiva do moribundo final da patética gestão de George W. Bush e que poderá angariar alguns votos para seu candidato republicano nas eleições estadunidense do final do ano (alfinetando o maior oponente na região, Chavéz). A contabilidade é primitiva e irresponsável, mas na sobrevida eleitoreira parece ser tudo possível.

 

A diplomacia suicida estadunidense conseguiu transformar o pós-Guerra Fria num mundo cada vez mais caótico, frágil e fragmentado. A eclosão de diversos conflitos nos quatro cantos do planeta, é mais um importante golpe para os arautos dos "milagres" da globalização. A região dos Bálcãs, Oriente Médio e fronteiras da Rússia, para citar exemplos mais difundidos na mídia, nunca tiveram tão longe de resolverem seus conflitos. Ainda a guerra é o melhor mecanismo de ensurdecer pessoas e lubrificar com ódio e sangue as engrenagens do capital. A estupidez parece sempre ser uma boa conselheira em críticos momentos de interesses políticos e econômicos.

 

O mais importante para os governos dos países da América do Sul é a estabilidade da região. Tal premissa nunca poderá abrir mão dela: a Paz é inequívoca. Nenhum dos países da área ganharia com a fragmentação política, exceto corpos inocentes ensangüentados e os interesses mesquinhos de algumas elites locais subserviente dos desígnios imperialistas de Washington. Nem as FARCs e nem os paramilitares na instável Colômbia poderão ser usados como pivô desta crise pré-fabricada. O narcotráfico, sem dúvida, é um dos graves problemas que afeta a construção de uma estabilidade política, porém atrelar este fator exclusivo por todas as intempéries regionais é fazer política com interesses e olhares estadunidenses. A fragilidade política permite uma rede de corrupção desenfreada, enfraquecimento da justiça e desmantelamento de qualquer possibilidade de um Estado de Bem-Estar Social. O combate à pobreza endêmica das sociedades sul-americanas é o maior de todos os grandes desafios. Somente com a união desses países será possível criar uma verdadeira comunidade sul-americana de nações independentes politicamente. Entrar na provocação de Uribe que está sendo usado como verdadeiro boneco de ventríloquo dos falcões de Washington é desconstruir todo o potencial de possibilidades reais para erguer países da grande pobreza histórica e sucumbir a uma guerra inútil e estúpida que corroerá as economias locais.

 

Se Chavéz e Lula querem ser líderes sul-americanos, caberá aos dois países sob a sua tutela unir esforços diplomáticos para conter a onda belicista colombiana a qualquer custo e não aceitarem o fácil discurso do "combate ao narcotráfico" dando subsídios para que Washington intervenha militarmente na região. Aliás, se os Estados Unidos quisesse realmente conter o narcotráfico, tal como maior mercado consumidor mundial de drogas, trabalharia com mais vigor ao combate aos traficantes de suas próprias fronteiras e cuidaria melhor dos seus dependentes químicos em seu próprio território.  O prelúdio da guerra pré-fabricada entre Colômbia e Equador é mais um catequético cenário da fragilidade, subserviência e instabilidade política dos governantes sul-americanos. Certamente uma dose extra de imbelicilidade condimenta este caldeirão explosivo de jogos de interesses tão medíocres, pequenos e suicidas.

 

Nenhuma guerra é boa e todo derramamento de sangue é inútil. O fortalecimento de uma América do Sul livre e autônoma politicamente é o desapego às práticas belicista do imperialismo estadunidense e a construção de políticas multilaterais que possam integrar as economias, políticas e culturas entre os países da área. Sem uma intensa combatividade incansável contra a pobreza local atrelada ao desenvolvimento econômico regional, as fragilidades políticas e interesses das elites locais dos países sul-americanos ficaram eternamente fadados a serem bonecos de ventríloquo do imperialismo.  Como diz Fidel em suas reflexões, nada é novo nesta história e tudo é muito previsível.


Referência:

Fidel Castro, “Los cristianos sin biblias”. Disponível em:  http://www.granma.cu/espanol/2008/marzo/lun3/reflexiones.html . Acesso em 04 março 2008.



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 06h31
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Charge do jornal carioca Correio do Brasil, 03/03/2008


Síntese da Pedagogia da opressão

Nem sempre o presidente Lula é feliz em seus comentários. Suas pérolas já se tornaram imortais. Porém, nada reflete tão bem a mentalidade fascista de setores da sociedade quanto o que impera o uso da força (ou seja, o braço da porrada policial) como meio "democrático" de garantir a "paz e a tranquilidade" da burguesia e seus apêndices sociais... Ah, claro, como de praxe no discurso dos donos do poder e que se propaga na mídia a serviço do capital, é tudo culpa dos "direitos humanos"! A charge do jornal carioca, Correio do Brasil, faz uma bela síntese do ficcional Brasil "Paz e amor".

 



Escrito por Wellington Fontes Menezes às 01h22
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